Bom artigo direto do Grupo de Mídia

Novos meios, velhos hábitos.
Por: Breno Masi

A expectativa em relação ao iPad como um novo caminho para o mercado editorial era enorme, mesmo antes de sua distribuição às lojas. A ideia de que o gadget chegaria para revolucionar e tomar de assalto o universo das publicações impressas começou a se consolidar logo após seu keynote oficial de lançamento.

As características do iPad como alternativa móvel super confortável e inovadora para acesso a conteúdos multimídia foram reforçadas ao longo de seu lançamento e divulgação e devem ter influenciado bastante essa linha de raciocínio. Soma-se a isso o lançamento da iBook Store, integrada ao iPad, como resposta ao sucesso do Kindle, que confirmou para o mercado a crença do visionário Steve Jobs na transição do papel para os tablets como suporte a conteúdos editoriais de natureza diversa.

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O mercado editorial impresso já enfrenta dificuldades e queda desde a popularização da Internet e, a partir desse ponto de vista, muitos artigos e previsões catastróficas amaldiçoaram editoras e editores que não abraçassem a nova plataforma. Muitos gurus previram uma queda vertiginosa para a venda dos exemplares impressos de periódicos, que passariam a ser comprados e lidos em larga escala através do iPad e outros tablets, que inevitavelmente seriam lançados por outros fabricantes.

Muitos protótipos para a versão em iPad de grandes revistas foram veiculados na web e surpreenderam pela riqueza de conteúdo multimídia adicionado ao conteúdo original das edições impressas, ambos completamente integrados e acessados através de interfaces incríveis, dinâmicas e inovadoras. Seria impossível resistir a tantas vantagens, conteúdos adicionais e tamanho encantamento provocado por um conteúdo que há pouco dormia estático nas prateleiras das bancas de jornal e agora estaria renovado, enriquecido e mais lindo do que nunca. Leitores comprariam iPads motivados pela possibilidade de ler suas revistas favoritas em sua nova versão.

O iPad efetivamente chegou às lojas, milhares unidades foram vendidas e com ele começaram a chegar não os protótipos, mas as versões de estréia no iPad de diversas revistas, incluindo a Time, cujo protótipo havia sido apresentado como exemplo, durante o keynote de lançamento. A realidade acabou não causando tanto impacto quanto a fantasia. As revistas para iPad chegaram mais enxutas em funcionalidades, interatividade e conteúdo adicional do que suas prévias indicavam. Algumas inclusive apresentaram sistemas de navegação desorganizados e falhas em seu desenvolvimento.

Editoras esperavam capitalizar seus negócios através do iPad e adotaram políticas de preços para a App Store que também não ajudaram muito. Preços que teoricamente deveriam ser menores que as edições em banca, inclusive pela economia em impressão e distribuição, acabaram sendo semelhantes se não maiores que os valores praticados para os exemplares impressos. Após o impulso que o fator novidade emprestou às primeiras edições para iPad de diversas revistas, na maioria dos casos as vendas caíram, como atestam os números publicados pelo site O Electronista.

No início da Internet, padrões emprestados de mídias mais antigas povoavam websites e somente após anos de experimentação encontrou-se uma linguagem própria para o meio. Com o iPad não será diferente. Estamos ainda tateando as possibilidades que, não só o iPad, mas os demais tablets podem oferecer como suporte a conteúdos. É possível que leitores intuitivamente sintam que, em relação aos padrões apresentados atualmente no iPad, o melhor suporte para uma revista ainda seja o papel. A produção de conteúdos complementares e sua integração também evolui aos poucos, pois depende não só da tecnologia disponível, mas de uma adaptação de equipes editoriais, que devem passar a planejar suas pautas levando em consideração tais possibilidades e não simplesmente incluindo nas edições para iPad conteúdos extras produzidos para seus respectivos websites.

Essa mudança mais profunda dentro das editoras inclui revisão dos processos de construção e produção de conteúdo. Ela está em curso e pode ser sentida aos poucos a cada nova versão publicada de revistas para iPad. O modelo de cobrança em questão também passará por uma grande revisão, encabeçada pela própria Apple. Pelo que os rumores indicam, as revistas passarão a seguir um modelo de cobrança determinado para toda a categoria que indicará, além de seus valores, os modelos disponíveis para assinatura dos periódicos.

Acredito que a transição do papel para os tablets e posteriormente outros suportes eletrônicos seja um caminho sem volta, só nos resta saber se as mudanças que estão por vir acelerarão esse processo ou precisaremos de mais adaptações e revisões dos modelos atuais para que os donos de iPads e outros tablets abandonem definitivamente as edições impressas de suas revistas favoritas.

Breno Masi | Diretor de Marketing e Produtos
Twitter: @macmasi

Fonte: http://www.gm.org.br/profiles/blogs/novos-meios-velhos-habitos

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