A cultura comum acabou. E isso muda tudo.
Por R. Guerra Cruz
A comunicação mudou radicalmente, e eu preciso confessar: sinto falta daquela época em que jornais, livros, filmes e canais de TV criavam um senso comum compartilhado. Todo mundo acessava as mesmas histórias, ria das mesmas piadas e discutia os mesmos escândalos no dia seguinte. Era previsível, massificado, fácil de mapear públicos-alvo.
A cibercultura bagunçou tudo isso. Nichos infinitos, criadores independentes, algoritmos que montam realidades sob medida.
Minha Teoria: Fragmentação Cultural Individualizada (TFCI)
Chamo de Fragmentação Cultural Individualizada (TFCI) esse cenário em que não conseguimos mais traçar grupos culturais coesos como antes. A demografia perdeu força explicativa.
Antes, bastava dizer: “jovens de 18-24 anos assistem à novela das 8”.
Hoje, ninguém sabe exatamente o que você consome no seu “For You”, nas suas newsletters privadas ou nos seus grupos fechados.
Não existem mais grandes blocos culturais previsíveis. Existem trajetórias individuais de consumo.
O que Pierre Lévy apontava na cibercultura e o que Chris Anderson descreveu na “cauda longa” deixou de ser teoria e virou cotidiano: identidades fluidas, repertórios híbridos, ausência de centro.
Por que definir público-alvo ficou tão complexo?
No passado, criar conteúdo para grandes grupos era relativamente simples. Uma campanha na Globo falava com milhões de forma previsível.
Hoje é um labirinto.
Se eu falo de nostalgia dos anos 90, com quem eu conecto?
Com quem viveu a MTV ou com quem redescobriu essa estética via Reels?
A jornada individualizada não elimina personas, mas as torna insuficientes. Precisamos ir além de faixa etária e renda.
Precisamos entender repertórios, microculturas, comunidades temporárias.
Conteúdo massivo falha porque tenta falar com todos ao mesmo tempo. E quando você fala com todos, acaba não pertencendo a ninguém.
O futuro sem cultura hegemônica
A nostalgia virou personalizada.
O que me emociona (Orkut, MSN, fitas VHS) talvez não diga nada para você. Sua memória afetiva pode estar em um TikTok viral de 2022 ou em um fórum obscuro do Reddit.
Esse é o novo ouro emocional: afetos individuais, conectados por microtribos.
Oportunidades? Muitas.
● Experiências desenhadas para nichos leais.
● Parcerias com microcriadores que realmente representam comunidades.
● Narrativas adaptáveis.
No fim, quem entender a TFCI não vai tentar reconstruir a cultura de massa. Vai transformar fragmentação em pertencimento.
E talvez esse seja o verdadeiro novo senso comum: cada um no seu universo, mas profundamente engajado nele.
