A publicidade tradicional morreu? Como o branding e a economia criativa tem ajudado no crescimento das marcas

Por Thiago Leon Marti*

Embora o senso comum sugira que a publicidade tradicional perdeu seu fôlego, os dados de 2026 indicam uma grande transformação ao invés de um fim definitivo. De acordo com o mais recente Relatório Global de Tendências de Consumo da Kantar, marcas que integram estratégias de branding emocional e economia criativa apresentam um crescimento de receita de 32%. Isso acontece porque o consumidor contemporâneo não busca apenas produtos, mas conexões genuínas: cerca de 74% dos jovens das gerações Z e Alpha afirmam que o propósito de uma marca e a originalidade do conteúdo são fatores decisivos em suas jornadas de compra.

Diante desse cenário, é possível concluir que o crescimento sustentável no mercado atual não depende mais da repetição de anúncios, mas da capacidade de transformar valores em experiências culturais significativas. Dessa forma, a metamorfose trazida pela tecnologia e novas formas de criar e inovar, impulsionou a estratégia híbrida de conteúdos. O que ocorreu foi uma mudança de paradigma: o foco saiu apenas da “interrupção” (anúncios massivos) para a “conexão” e relevância na cultura digital.

Quando se fala de mídias, o rádio e a televisão ainda conseguem alcançar audiências de massa e construir confiança, mas agora funcionam melhor em conjunto com o digital. Portanto, utilizando ambas as ferramentas, os gastos com publicidade não diminuíram; eles apenas se dividiram. A publicidade tradicional continua a crescer, indicando sua relevância contínua. Campanhas de TV, por exemplo, agora frequentemente incluem QR codes, direcionando o público para o ambiente digital.

Enquanto o marketing tradicional está focado em vender produtos no curto prazo, o branding e a economia criativa constroem reputação, valor e comunidades duradouras. Contudo, para isso é preciso construir uma narrativa por meio do branding, que gere a imagem da marca, fazendo com que valores e comunicação sejam consistentes, o que aumenta a confiança e a fidelização. Essa estratégia precisa estar alinhada com o propósito da marca. Isso porque não vendem apenas produtos; elas criam significados e personalidades que se conectam com os consumidores.

Além disso, outra vertente da publicidade criativa é utilizar a cultura como negócios por meio de patrocínio de festivais, exposições de arte e apoiar iniciativas culturais, gerando valor simbólico e autenticidade. Por sua vez, as redes sociais também passaram a ser aliadas: o poder passou dos canais para os criadores de conteúdo. Dessa forma, as marcas que colaboram com criadores engajam melhor do que aquelas que apenas interrompem com anúncios. Assim, com o auxílio da tecnologia, quando bem usada, a economia criativa permite que marcas se comportem como “pessoas reais” e relevantes, interativas e focadas na cultura digital.

Em suma, para o futuro próximo, marcas fortes serão aquelas que integrarem IA para criatividade exponencial, relevância no momento do consumidor (contexto) e autenticidade para construir confiança. Assim, o branding deixa de ser uma moldura estética para se tornar a “alma” do negócio, sendo o pilar essencial para garantir que a marca permaneça humanizada em um ecossistema cada vez mais algorítmico. Nesse novo paradigma, o sucesso não será medido apenas pelo market share, mas pela força do seu fandom, uma comunidade de defensores que não consome apenas produtos, mas compartilha e sustenta a identidade cultural da marca no tempo.

*Thiago Leon Marti, é Head de Branding, Design e Comunicação na Printi. É formado em Produção Gráfica e Design Gráfico, com Pós-Graduação em Design Gráfico pela Faculdade de Belas Artes da Hungria e também em Design Estratégico e Inovação pelo IED-Brasil. O executivo conta com trajetória multidisciplinar nas áreas de design e experiência no universo do terceiro setor e impacto social, e tem passagens pelo Instituto Máquina do Bem e eduK.

Será que o funil de marketing morreu mesmo?

Por Rakky Curvelo*

Imagine uma marca brasileira de roupas. Ela investe em uma campanha de conteúdo: posts sobre looks para festas, artigos no blog sobre moda, landing pages otimizadas com call-to-actions perfeitos. Tudo muito pensado. Mas após meses, os números não acompanham o investimento feito. Enquanto isso, um consumidor descobriu a marca no TikTok por um vídeo de uma personal stylist, pesquisou no Google e recebeu uma resposta de IA resumindo reviews e só então chegou ao site da marca. Quatro canais, caminhos não-lineares, múltiplos pontos de contato e uma certeza: o funil tradicional não tem mapa para isso.

Essa frustração se repete em centenas de empresas brasileiras todos os dias. O funil de marketing clássico, ou seja, aquele modelo linear que aprendemos e aplicamos por anos, com etapas bem definidas de consciência, consideração e decisão, já não consegue mais capturar a realidade da jornada de compra. E a culpa não é de ninguém, foi só o mundo mudou. De novo.

Quando os smartphones explodiram em popularidade, as lojas físicas não desapareceram, elas se transformaram. O varejo percebeu que não se tratava mais de escolher entre loja virtual ou física, mas de integrar ambas em uma única experiência. De acordo com o Think with Google, os consumidores interagem com mais de 130 pontos de contato no celular por dia. Dados mostram que 60% das buscas no Google terminam sem que o usuário clique em qualquer link. Isso significa que as pessoas estão contornando os sites das marcas.

Agora, Millennials e Geração Z são as prioridades em estratégias B2B e B2C. A Geração Z cresceu em um mundo onde a publicidade era previsível. Para eles, a criatividade e a autenticidade se tornaram moedas de troca. Querem marcas que entendam seu contexto cultural, que falem sua língua. Millennials, por sua vez, se tornaram adultos no meio de duas realidades: antes e depois da internet mudar tudo. Eles entendem fragmentação porque viveram na transição. E, consequentemente, entendem que jornadas não são lineares.

Não precisamos adivinhar como será o futuro. Marcas globais já estão vivendo nele. A Sephora percebeu que conteúdo não precisa ter um único objetivo. No TikTok, eles não fazem vídeos separados para “conhecimento do produto” e “pós-compra”. Fazem um único vídeo onde influenciadores testam produtos que já amam, criando valor para novos clientes e reforçando a experiência dos antigos. Qualquer conteúdo vira ponto de entrada.

A Netflix faz algo parecido com sua comunicação. Em vez de campanhas separadas para aquisição, engajamento e retenção, unificou suas frentes criativas. Trailers virais específicos para suas audiências em diferentes localidades (no Brasil, os anúncios de “Caramelo”, na Irlanda, os de “House of Guinness”), notificações contextualizadas, tudo funciona em tempo real, sem esperar que o usuário “avance” em uma etapa.

Afinal, o que isso significa na prática?

Imagina que você trabalha em uma startup de software de gestão. Até ontem, sua estratégia era: criar conteúdo para atrair pessoas ao blog, educá-las sobre o problema, depois apresentar a solução e converter. Linear. Previsível. Cada coisa no seu lugar. Hoje, você precisa estar onde seus clientes estão. Se antes, isso significava construir autoridade para aparecer no topo da pesquisa do Google, hoje você precisa estar na resposta de IA, no Google, no ChatGPT, no Claude, no Gemini… Se seus clientes estão no LinkedIn trocando ideias com colegas sobre problemas de gestão, você precisa estar naquela conversa.

O diferencial reside nas interações personalizadas e contextualizadas, onde se reconhece quem é a pessoa, em que momento ela está, além de oferecer exatamente o que faz sentido para aquela situação específica.

Algumas metodologias já começaram a estruturar isso, considerando quatro estágios interconectados: primeiro, você verbaliza a identidade e a voz única da sua marca, porque a IA amplifica o que já é autêntico em você. Depois, orienta mensagens altamente personalizadas usando dados unificados do cliente. Em seguida, amplifica esse conteúdo em todos os canais onde seus clientes estão, inclusive nos espaços onde a IA fornece respostas. Por fim, refina continuamente com base em performance em tempo real.

A IA, que assusta muita gente com a ideia de automação, pode ser sua maior aliada. Quando usada corretamente, sempre combinada com criatividade e estratégia humana, ela permite que pequenos times façam o trabalho que antes exigia equipes três vezes maiores. Você consegue criar variações personalizadas de conteúdo e segmentar audiências com precisão, além de testar hipóteses rapidamente.

Os desafios não saíram de cena

A mudança traz desafios reais e acredito que a fragmentação da atenção é o primeiro deles. Isso exige uma clareza estratégica que muitas empresas ainda não têm, pois estar em todos os lugares sem clareza nenhuma é pior que estar em poucos lugares estratégicos. O segundo desafio é a privacidade de dados e a regulação. Quanto mais você quiser personalizar, mais dados precisa coletar, mas a paisagem regulatória está ficando mais complexa.

O terceiro é o ruído. Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas de IA, a criatividade humana vira o diferencial único. Um e-mail com conteúdo gerado por IA, sem estratégia por trás, vai para o spam junto com todos os outros. E há um quarto desafio, talvez o mais delicado: muitas equipes de marketing cresceram aprendendo a antiga metodologia. Mudar mindset é difícil, pois requer investimento em treinamento, experimentações e estar aberto a possíveis falhas iniciais.

O fato é que o funil não morreu, ele apenas deixou de ser a verdade absoluta. Assim como o varejo não desapareceu quando chegou o e-commerce, o marketing não vai desaparecer quando a IA se popularizar, no entanto, ele vai se parecer cada vez menos com aquilo que aprendemos nas aulas de marketing tradicional. A verdade é que esse modelo que estamos construindo também vai envelhecer. Em cinco, dez anos, haverá outra ruptura, outra tecnologia, outra geração repensando tudo. E então faremos isso tudo de novo, porque o marketing nunca vai ser estático.

A mudança não é o problema. O problema mesmo é ficar parado enquanto o mundo se move. E a melhor estratégia para os próximos anos? Desenvolver a humildade de saber que tudo que construímos hoje vai precisar ser reconstruído amanhã.

*Rakky Curvelo, gerente de marketing da HubSpot Brasil