Crises passam. A percepção fica. O caso Ypê e o valor de marca

Por Rodrigo Cerveira*

Uma coisa todo mundo sabe: crises acontecem. O episódio envolvendo a Ypê e a Anvisa é o mais novo exemplo de uma crise de reputação em tempo real.

O impacto está diretamente relacionado à capacidade de uma marca responder rápido e se comunicar com transparência. Isso continua sendo um dos principais fatores de sobrevivência. Marcas que conseguem equilibrar essas duas frentes não apenas sobrevivem, mas muitas vezes saem mais fortes.

Estamos na era em que o intangível dita as regras. Em 1975, 80% do valor de um negócio estava em ativos físicos. Hoje, acontece exatamente o contrário. O brand equity pode representar até 80% do valor de mercado de uma empresa. Quando a crise bate à porta, é esse colchão de confiança que ajuda a amortecer a queda.

O caso da Ypê, presente em mais de 95% dos lares brasileiros, ilustra bem essa dinâmica. A suspensão de produtos pela Anvisa por falhas no processo produtivo ultrapassou o debate sanitário e virou disputa de narrativas nas redes. A reputação construída ao longo de 76 anos fez parte dos consumidores sair em defesa da empresa, mostrando como marcas fortes também criam resiliência.

Ainda assim, a escalada da crise deixa claro que capital de marca, por maior que seja, não é inesgotável.

A história está repleta de lições. O padrão-ouro segue sendo o Caso Tylenol de 1982. Quando cápsulas foram adulteradas com cianeto, a Johnson & Johnson não era culpada, mas agiu como se fosse. Em menos de 48 horas, retirou 32 milhões de embalagens do mercado. O recado foi direto: a vida do cliente vale mais do que o balanço trimestral. A marca recuperou sua liderança porque entendeu que confiança não se negocia.

No extremo oposto, a Volkswagen perdeu 14 bilhões de euros em valor de mercado em um único dia no Dieselgate porque escolheu mentir. A BP perdeu 55% do valor de suas ações em dois meses após o desastre da Desastre da Deepwater Horizon, com uma resposta lenta e um CEO desconectado da gravidade da situação. A relação é direta: quando a percepção de valor desaba, o valor da empresa cai junto.

Os números pós-crise escancaram essa realidade. A Johnson & Johnson, ao priorizar a transparência no caso Caso Tylenol de 1982, viu seu market share cair de 37% para 7%, mas recuperou a liderança em menos de um ano e hoje segue entre as empresas mais valiosas do mundo. Em contraste, a Volkswagen viu 15,6 bilhões de euros evaporarem de seu valor de mercado no primeiro dia do Dieselgate, levando anos para recuperar a confiança dos investidores. A BP, por sua vez, perdeu mais de 70 bilhões de dólares em market cap nos primeiros cem dias após o desastre da Desastre da Deepwater Horizon, um tombo do qual nunca se recuperou totalmente. Para a Ypê, que agora tem sua marca colocada à prova, o desafio é mostrar que seu capital de confiança será suficiente para conter a crise antes que o impacto chegue ao balanço.

O recado é simples: gestão de reputação não é protocolo reativo. É parte central da estratégia de construção de valor e resultado. O valor de uma empresa não está apenas no que ela vende, mas no que ela constrói na mente e no coração das pessoas.

Crises passam. A percepção fica.

*Rodrigo Cerveira é sócio e CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio. Com 30 anos de experiência em estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios globais e locais, é especializado em construção de marca e estratégia criativa. É formado em Publicidade e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero, com Extensão em Gestão pelo INSEAD (Instituto Europeu de Administração de Negócios).

Às favas, o Dólar!

Por Adinan Nogueira*

Sejamos maduros e elejamos a propaganda! O Dólar, não!

Este deve ser o grande medidor da nossa economia e do que deveremos perseguir.

Alguns leitores e internautas mais afoitos vão me chamar de comuna. Não! Por favor! Sou publicitário mesmo e a favor do mercado!

E a grande moeda que já move o mundo dos negócios é a propaganda e não necessariamente o dólar. Por aqui a propaganda já foi dolarizada em tempos de hiperinflação! Mas com a estabilidade do Real, não mais.

Ahhh, mas e o mercado de matéria prima? Ok, entendo! E sim o dólar demarca uma série de itens em um mundo globalizado. Mas existe o mercado da lembrança de marca, que está na cabeça dos compradores. Este é o verdadeiro mercado e pouca gente tem se lembrado desta flutuação. E poucas vezes a lembrança e o reconhecimento das marcas vão para a berlinda dos medidores: Kantar Ibope, Nielsen, Datafolha, ou qualquer pesquisa regional que ateste o patrimônio imaterial das marcas e sua flutuação. Infelizmente.

Vamos à frieza dos números!

O Brasil é o sexto país em investimento de propaganda, mas investe mal. O mercado anda crescendo, o que eu amo, claro! Um país de PIB imenso daria uma ótima colocação, mas se vermos o valor per capita aí vemos que a lição é mais embaixo! Os Estados Unidos, outro gigante como nós, investe cerca de 737 DÓLARES PER CAPITA … e nós? Cerca de U$ 66.

Ahhh, mas e o valor do dólar? Ahhhh, volto a perguntar? E o valor da marca? Do mercado e da relevância da marca? É a lição que precisamos colocar no hall das preocupações diárias da gestão, das medições cotidianas, das compras de pesquisa, das leituras dos algoritmos e das construções de imaginário que movem o consumo. Imaginário! Relacionamento! DESEJO de compra!

Quer mais? Suíça U$ 716, Japão, U$ 365, Austrália U$ 497, Reino Unido U$ 424!

Adinan Nogueira

Tem marcas que além de relevantes no mercado interno, têm relevância no mercado externo. Chocolate suíço… conhecem? Que certamente tem produção em países tropicais!

Aqui também temos cases inúmeros que investem volumes corretos (vulgo percentual de propaganda sobre faturamento), e muitas vezes ousados que garantem barreiras de entradas em alguns mercados e fazem um ciclo virtuoso acontecer: Casas Bahia, Magazine Luiza, O Boticário, Natura, Itaú, Bradesco,… E ainda por este Brasil existe um número infindável de empresas que desconsideram este tipo de verba em seus planejamentos administrativos financeiros.

Ahhh… e a China? Ahhh, multiplicou por mais de 10 vezes o valor de investimento dos anos 2.000 até os dias atuais. E o Brasil, como evoluiu nestes anos? Pouco mais que dobramos – passamos de cerca de U$ 27 para U$ 66 – o que eu adoro, mas este motor ainda precisa de mais gasolina, e nossas marcas precisam de mais brilho.

Ahhhh, então é melhor parar de reclamar do preço da gasolina, opsss propaganda, encher e rodar este motor para chegar onde essas empresas querem chegar. Este é o verdadeiro medidor de economia e tem muita gente fazendo barulho na internet sem fazer lição de casa no próprio quintal – e esta responsabilidade é literalmente das empresas e do jogo que elas querem jogar. É a PROPAGANDA que move a economia, e não o contrário. Entendo que o verdadeiro insumo em tempos digitais e IA é a comunicação enfática (vulgo propaganda) bem feita, e não o dólar, que em tempos de criptmoeda pode estar ficando démodé.

E sim, o grande medidor não é só curtidas e não está somente nas redes sociais, mas mais do que nunca, o que realmente importa está na cabeça dos consumidores.

*Adinan Nogueira é publicitário e Cofundador da Agência Cervantes Montenegro, doutor em Ciências da Comunicação, professor universitário, e autor dos livros “A Imagem no Marketing Turístico” e “Quero Fazer Propaganda. E Agora?

Coluna Propaganda&Arte

Marcas sonoras dos Streamings: O som que fica na sua cabeça (e coração)

Por R. Guerra Cruz

Imagem gerada no site imagine.art (gerada por IA)

O que vem à sua mente quando você ouve aquele “Tudum” inconfundível da Netflix ou o piano mágico do Disney+?

Esses sons não são apenas efeitos de abertura. Eles são poderosas ferramentas de branding, capazes de criar conexões instantâneas e memoráveis com o público. Em segundos, eles nos transportam para um universo emocional — e, claro, para o conteúdo que estamos prestes a consumir. Vamos entender melhor cada marca sonora? (Sounds good!)

Netflix: O Impacto do “Tudum”

Não tem como negar: o “Tudum” da Netflix é inconfundível. Quem nunca se sentiu imediatamente absorvido ao ouvir esse som?

● Som Marcante: Com um impacto seco e leve reverberação, o “Tudum” chama sua atenção sem rodeios.
● Onomatopeia Poderosa: Não é só um som, é uma palavra — “Tudum” se tornou sinônimo de Netflix, de entretenimento imediato.
● Conexão Instantânea: O simples toque desse som já nos faz sentir que estamos prestes a vivenciar algo incrível e único. Isso é lealdade e reconhecimento de marca em sua forma mais pura.

HBO/Max: O som que evolui

A HBO sempre foi sinônimo de qualidade premium e a sua marca sonora reflete essa tradição — mas também abraça a evolução.

● O Passado: Lembra do chiado clássico? Ele trazia uma sensação de mistério e de qualidade cinematográfica.
● Evolução para o “Max”: Com a chegada da HBO Max (e agora, apenas Max), o som passou por uma transição: mais forte no início, seguido de um chiado suave, como uma homenagem ao legado da marca.
● Sofisticação e Inovação: O som da Max é a perfeita combinação de tradição e modernidade, criando uma aura de exclusividade e sofisticação.

Disney+: O som da magia

Se você é fã da Disney, não há como não se emocionar com todo o repertório musical da Disney. A marca sonora também acompanha a logo do Disney+.

● Magia: O som começa suave e vai crescendo, à medida que o arco da marca Disney+ se desenha na tela.
● Piano: O som do piano no final do logo traz a essência mágica da Disney, colocando você no clima de emoção e fantasia que só eles sabem criar.
● Tradição e Inovação: O som se conecta com a história musical da Disney, ao mesmo tempo em que reforça a novidade trazida pela plataforma.

Globoplay: A história e a modernidade no Brasil

O Globoplay tem uma sonoridade que combina o impacto imediato com uma nostalgia cinematográfica.

● Impacto Sonoro Inicial: O logo começa com um som forte, chamando a atenção.
● Nostalgia Cinemática: O som dissolve-se em um ruído de projetor antigo, como se estivéssemos no cinema.
● Identidade Híbrida: O Globoplay une passado e futuro, tornando-se uma plataforma que valoriza o legado audiovisual enquanto projeta-se para o futuro do entretenimento.

Por que esses sons são tão cruciais para as marcas?

Esses pequenos momentos sonoros não são apenas detalhes — são estratégias poderosas de marketing. Vejamos o que está em jogo:

● Memória Auditiva: Nosso cérebro é altamente sensível a sons, o que faz com que esses efeitos sonoros sejam memorizáveis e fiquem na nossa mente muito tempo depois que o conteúdo acabou.
● Conexão Emocional: Em segundos, um som pode evocar emoções como expectativa, alegria ou até saudade, criando um vínculo emocional com a plataforma.
● Diferenciação no Mercado: Em um mar de opções, esses sons são a marca registrada de cada serviço. Quando você ouve o “Tudum” ou o piano do Disney+, você sabe imediatamente o que está prestes a assistir, criando uma identidade única.

“Ka-ching!” O som que importa: o som do dinheiro entrando!

Quando você ouve esses sons — do impacto sonoro da Netflix ao piano mágico da Disney+ — está ouvindo mais do que simples efeitos sonoros. Você está ouvindo estratégias de branding em ação.

Esses sons têm um objetivo claro: fidelizar assinantes, gerar receita e reforçar o valor da marca. Cada segundo de áudio é cuidadosamente pensado para atrair e cativar o público, ajudando as plataformas a se manterem no topo da competição acirrada.

Então, da próxima vez que você ouvir o “Tudum”, o piano encantado ou o som de projetor, lembre-se: não é só o entretenimento que está em jogo, mas a magia sonora que ajuda a conquistar corações, mentes e, claro, assinaturas.