Relevância: o ativo mais valioso do século XXI

Por Josué Brazil* (com apoio de IA)

Em um mundo hiperconectado, onde milhares de mensagens disputam nossa atenção a cada dia, a relevância tornou-se um dos ativos mais importantes para marcas, empresas e profissionais. Mais do que vender produtos ou serviços, o grande desafio contemporâneo é conquistar espaço na mente e na preferência das pessoas. Afinal, por que algumas organizações conseguem se destacar enquanto outras desaparecem, mesmo possuindo recursos semelhantes?

Segundo Philip Kotler, considerado um dos maiores estudiosos do marketing moderno, o sucesso das empresas depende cada vez mais da capacidade de gerar valor para seus públicos. Em outras palavras, não basta oferecer algo; é preciso oferecer algo que seja percebido como importante, útil e significativo. A relevância surge justamente desse encontro entre o que uma organização entrega e o que as pessoas realmente valorizam.

Essa lógica também se aplica às marcas. Em seu livro sobre posicionamento, Al Ries argumenta que a batalha do mercado ocorre dentro da mente do consumidor. Marcas relevantes conseguem ocupar um espaço claro e diferenciado nesse ambiente cada vez mais congestionado. Já aquelas que não comunicam uma proposta de valor consistente acabam sendo substituídas por concorrentes mais alinhados às expectativas do público.

O mesmo fenômeno pode ser observado entre profissionais. Em uma realidade marcada pela inteligência artificial, automação e rápidas transformações tecnológicas, o conhecimento técnico continua importante, mas já não é suficiente. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, competências como criatividade, pensamento analítico, capacidade de adaptação e resolução de problemas estão entre as habilidades mais valorizadas para os próximos anos. Em outras palavras, permanecem relevantes aqueles que conseguem gerar contribuições únicas em cenários de constante mudança.

Curiosamente, a busca pela relevância não significa estar presente em todos os lugares ou seguir todas as tendências. Pelo contrário. O autor Seth Godin defende que as organizações mais bem-sucedidas são aquelas que encontram um grupo específico de pessoas e criam valor de forma consistente para elas. Tentar agradar a todos pode ser o caminho mais rápido para se tornar irrelevante.

Outro aspecto importante é que a relevância não é permanente. Empresas que dominaram seus mercados durante décadas já perderam espaço por não perceberem mudanças no comportamento dos consumidores. O caso de empresas que ignoraram a transformação digital é um exemplo clássico de como o sucesso passado não garante a relevância futura. Em mercados dinâmicos, a capacidade de aprender, adaptar-se e inovar tornou-se tão importante quanto a eficiência operacional.

Nesse contexto, a tecnologia representa uma ferramenta poderosa, mas não um fim em si mesma. Inteligência artificial, análise de dados e automação podem ampliar a capacidade de compreender consumidores e personalizar experiências. No entanto, continuam sendo as pessoas que atribuem significado às marcas, aos produtos e às relações. A tecnologia pode aumentar a visibilidade, mas a relevância continua sendo construída por meio da entrega consistente de valor.

Talvez essa seja uma das principais lições para o século XXI: empresas, marcas e profissionais não competem apenas por mercado, audiência ou vendas. Eles competem por relevância. E, em um ambiente caracterizado pelo excesso de informação e pela escassez de atenção, ser relevante deixou de ser uma vantagem competitiva. Tornou-se uma condição indispensável para continuar existindo.

* Josué Brazil é professor, palestrante e pesquisador das transformações que impactam a relevância de marcas, profissionais e organizações.

A economia da atenção acabou. Entramos na economia da relevância.

 

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Durante muito tempo, o principal objetivo das marcas no ambiente digital foi conquistar atenção. Mais visualizações, mais cliques e mais tempo de tela pareciam representar automaticamente melhores resultados. Porém, esse modelo começa a mostrar sinais de desgaste. Em um cenário marcado pelo excesso de conteúdo e pela disputa constante por espaço nas redes sociais, o diferencial deixou de ser apenas aparecer. Hoje, o que realmente importa é ser relevante.

O conceito de “economia da atenção” foi desenvolvido para explicar justamente essa lógica de competição pelo foco das pessoas. De acordo com a American Economic Association, a atenção humana passou a ser tratada como um recurso escasso dentro da sociedade digital, especialmente porque somos expostos diariamente a uma quantidade gigantesca de informações, anúncios e estímulos simultâneos. Esse excesso fez com que consumidores se tornassem mais seletivos sobre aquilo que realmente merece seu tempo e interesse.

Esse comportamento pode ser percebido claramente nas plataformas digitais. Segundo um estudo da Globo em parceria com a Forebrain, muitas marcas têm apenas cerca de 2,5 segundos para conquistar a atenção do usuário antes que ele simplesmente ignore o conteúdo. O dado ajuda a entender por que campanhas altamente produzidas nem sempre conseguem gerar conexão real. Em um ambiente acelerado, o público aprende rapidamente a filtrar mensagens genéricas, repetitivas ou pouco úteis.

Ao mesmo tempo, o avanço da inteligência artificial e dos algoritmos transformou a produção e distribuição de conteúdo. Hoje, plataformas conseguem recomendar vídeos, anúncios e produtos com base em hábitos de consumo, preferências e comportamento digital. De acordo com pesquisas publicadas pela IntechOpen, a comunicação automatizada tende a se tornar cada vez mais eficiente tecnicamente. No entanto, existe um efeito curioso nesse processo: quanto mais automatizado o conteúdo se torna, maior passa a ser o valor percebido da autenticidade.

Isso ajuda a explicar por que consumidores vêm valorizando marcas que conseguem estabelecer relações mais humanas e coerentes. Conteúdos educativos, bastidores, posicionamentos transparentes e experiências reais frequentemente geram mais identificação do que campanhas excessivamente perfeitas. A lógica mudou: em vez de apenas interromper pessoas com publicidade, as marcas precisam oferecer significado, utilidade ou conexão emocional.

Essa transformação também altera profundamente o papel dos profissionais de marketing e comunicação. Durante muitos anos, métricas como alcance, impressões e curtidas dominaram os relatórios de desempenho. Porém, segundo estudos recentes publicados na plataforma acadêmica SSRN, indicadores ligados à confiança, relacionamento e engajamento significativo tendem a representar impactos mais duradouros para as marcas. Em outras palavras, nem toda visibilidade gera valor real.

Outro ponto importante é que relevância depende de contexto. O que funciona para determinado público pode não gerar qualquer impacto em outro grupo. Isso exige maior sensibilidade cultural, análise de comportamento e capacidade de adaptação constante. As marcas mais fortes da próxima década provavelmente serão aquelas capazes de entender pessoas de maneira mais profunda, e não apenas aquelas que investirem mais em mídia ou automação.

No fim das contas, a grande mudança da comunicação contemporânea talvez seja esta: atenção pode até ser capturada momentaneamente, mas relevância precisa ser construída. E, em um ambiente onde todos falam ao mesmo tempo, serão lembradas não as marcas que simplesmente aparecerem mais, mas aquelas que conseguirem fazer sentido na vida das pessoas.

Para serem relevantes, marcas devem criar situações em que as pessoas escolham dedicar a atenção

Por Gian Martinez*

Vou te contar o que ocorre na internet a cada minuto no mundo: 16 mil vídeos são upados no TikTok; 138,9 milhões de reels são reproduzidos no Instagram e Facebook; o Youtube alcança mais de 3,4 milhões de visualizações de vídeo. Os dados da pesquisa “Data Never Sleeps” [Dados Nunca Dormem], da Domo, mostram que nunca se produziu e se publicou tanto conteúdo, com a população mundial de usuários de internet atingindo o recorde de 5,52 bilhões de pessoas.

Neste cenário, o marketing e a publicidade enfrentam o desafio constante de chamar a atenção dos consumidores no meio desse mar de conteúdo. Para se mostrarem relevantes hoje, a lógica da insistência, repetição e interrupção, como em comerciais ou anúncios, já não é mais relevante. A exposição, por si só, não garante a atenção, já que hoje o público consegue escolher o que assistir, quando e por quanto tempo, inclusive, optando ou não por ser impactado por propagandas.

Além disso, é preciso considerar que as redes sociais não trabalham a partir da lógica de importância sobre o que as marcas querem vender, mas sim sobre o que o usuário quer ver. É por isso que o conteúdo criado pelo próprio usuário sobre um produto tem tido muito mais relevância do que o feito pela própria marca. É muito mais interessante que a marca surfe nesta oportunidade de visibilidade orgânica, mesmo que neutra, do que brigue para tentar parecer a melhor.

Na verdade, as marcas que entenderam a lógica das redes sociais são aquelas que não competem diretamente por atenção, mas que criam situações e cenários em que a atenção ocorra de forma natural por parte do usuário, como quando um conteúdo conversa com o contexto cultural do momento, uma experiência gera envolvimento genuíno ou uma narrativa provoca identificação, quando inserida em um formato que respeita a dinâmica da plataforma.

Compreender, de fato, o que move as pessoas, é o que engaja, retém e valida o alcance. Nesse ponto, o uso de dados para medir a atenção do usuário se torna uma prioridade, já que, quando analisados de forma profunda e diante de múltiplos cenários, eles revelam padrões de comportamento, antecipam tendências e ajudam as marcas a construir presença nas redes sociais com intenção. Aqui, as métricas tradicionais, como social listening, dão lugar a indicadores mais precisos, como o Share of Attention™, da própria Winnin, que se baseia em dados reais de consumo de vídeo para medir a cultura e no que o público está atento enquanto utiliza as redes sociais.

*Gian Martinez é co-fundador e CEO da Winnin. Com mais de 20 anos liderando estratégias criativas em grandes empresas, é considerado uma referência no mundo quando o assunto é “ciência da criatividade”. Antes de empreender, Gian liderou por 7 anos o departamento criativo da Coca-Cola no Brasil, sendo reconhecido por dezenas de premiações. Foi o co-autor da visão global da empresa sobre o futuro do conteúdo e um dos líderes da transformação criativa que ajudou a empresa a conquistar pela primeira vez o título de marca mais criativa do mundo no Cannes Lions de 2013. Foi essa experiência que inspirou a criação da inteligência artificial da Winnin, que potencializa o processo criativo de grandes marcas com insights culturais preditivos e granulares. Entre os diversos reconhecimentos, foi nomeado Young Lion, Top 30 Under 30 e uma das 50 pessoas mais inovadoras do Brasil. Em 2020 foi reconhecido pela revista WIRED entre “Os 50 Nomes que Expandiram a Criatividade no Brasil”. Em 2021 foi indicado ao Caboré como profissional de inovação do ano pelo trabalho na Winnin. É membro do board criativo global da AbInbev.

Coluna “Discutindo a relação…”

Propósito de marca e oportunismo

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Imagem gerada pela IA do Canva

Quando a causa vira discurso, o consumidor percebe. Quando vira prática, ele se conecta.

Nos últimos anos, falar de propósito deixou de ser diferencial e virou quase uma obrigação no universo das marcas. Questões sociais, ambientais e culturais passaram a ocupar espaço nas campanhas, nos posicionamentos e até nos slogans. Mas, no meio desse movimento, surge uma pergunta inevitável: estamos diante de marcas mais conscientes — ou apenas mais estratégicas?

A ideia de propósito, em sua essência, é poderosa. Marcas como a Patagonia, por exemplo, construíram sua reputação com base em ações concretas ligadas à sustentabilidade, como incentivo ao consumo consciente e ativismo ambiental real. Nesse caso, o discurso não veio primeiro — ele é consequência de uma prática consistente ao longo do tempo. E isso faz toda a diferença.

Por outro lado, há casos em que o propósito parece surgir apenas em momentos de conveniência. Datas como o Mês do Orgulho LGBTQIA+ ou campanhas em torno de diversidade e inclusão frequentemente colocam marcas sob os holofotes — nem sempre de forma positiva. Quem não lembra da polêmica envolvendo a Pepsi e seu comercial com a Kendall Jenner? A tentativa de associar a marca a movimentos sociais foi vista como superficial e desconectada da realidade, gerando forte rejeição.

Propósito não é campanha. É coerência.

O consumidor de hoje — especialmente o mais jovem — é atento, crítico e, principalmente, informado. Ele acompanha o que as marcas dizem, mas também observa o que elas fazem. Não basta levantar uma bandeira em uma campanha se, internamente, a empresa não pratica aquilo no dia a dia. A incoerência, nesse cenário, não passa despercebida — e pode custar caro em termos de reputação.

Isso não significa que marcas não possam — ou não devam — se posicionar. Pelo contrário. O silêncio, em muitos casos, também comunica. A questão central está na autenticidade. Quando o propósito é genuíno, ele aparece de forma natural na comunicação, nas ações internas, nos produtos e até nas decisões de negócio. Quando não é, ele soa como oportunismo — e o público sente.

Entre o discurso e a prática, existe um abismo — e o consumidor enxerga esse espaço.

Talvez o maior desafio para as marcas hoje não seja encontrar um propósito bonito para comunicar, mas sim construir um propósito verdadeiro para sustentar. Isso exige tempo, consistência e, muitas vezes, decisões difíceis que vão além do marketing. Afinal, propósito não se cria em uma reunião de briefing — ele se constrói na cultura da empresa.

No fim das contas, fica a reflexão: em um mercado cada vez mais atento e exigente, vale mais parecer engajado ou ser, de fato, relevante? Porque, no jogo da comunicação contemporânea, não é a marca que diz quem ela é — é o público que decide no que acredita.