Propósito e personalização redesenham as estratégias de marketing de relacionamento; entenda a tendência

Marcas transformam pontos de contato em experiências capazes de fortalecer vínculos, comunicar valores e conectar clientes a histórias reais e cadeias de impacto positivo

O marketing de relacionamento está deixando para trás a lógica baseada exclusivamente em benefícios, recompensas e programas de fidelidade. Em um cenário de queda da lealdade e crescente demanda por relações mais autênticas, marcas passam a transformar cada interação em uma oportunidade de gerar identificação, confiança e proximidade.

Estudos internacionais ajudam a dimensionar essa mudança. O Edelman Trust Barometer 2025 – Special Report: Brand Trust aponta uma evolução na forma como o propósito é percebido: consumidores já não se conectam apenas com discursos, mas esperam ações capazes de gerar relevância, segurança e presença autêntica na comunidade. Na mesma direção, a Forrester identificou uma queda de 25% na lealdade às marcas em 2025, mesmo diante do avanço dos programas de fidelidade.

Nesse contexto, a personalização também ganha um novo significado. Mais do que adaptar produtos, ofertas ou mensagens às preferências do público, passa a incorporar histórias, origens, pessoas e impactos. A experiência se torna parte do posicionamento da marca.

A estratégia acompanha uma transformação observada no branding contemporâneo. Em vez de concentrar esforços exclusivamente em campanhas publicitárias ou programas de fidelização, marcas passam a investir em experiências capazes de traduzir seu posicionamento em ações concretas. Cada interação se torna uma oportunidade para reforçar atributos como autenticidade, confiança e responsabilidade socioambiental.

A tendência reposiciona iniciativas antes consideradas complementares nas estratégias de comunicação. Presentes corporativos, por exemplo, deixam de cumprir apenas uma função promocional e passam a atuar como pontos de contato capazes de comunicar escolhas, valores e compromissos.

O valor do brinde deixa de estar concentrado apenas na utilidade, no custo ou na exposição da identidade visual. Sua origem, a história de quem o produziu e o impacto gerado ao longo da cadeia passam a integrar a experiência oferecida ao público.

Nesse contexto, apoiar iniciativas familiares deixa de ser apenas uma escolha de fornecimento e passa a integrar a própria experiência oferecida ao cliente. O relacionamento não é construído apenas pela utilidade do brinde, mas pela história que ele carrega, pelas pessoas que representa e pelos valores que comunica.

A Deskbee, plataforma de gestão de espaços e rotinas de trabalho, é um exemplo de como essa tendência começa a ganhar forma. A empresa passou a desenvolver parte de seus brindes em parceria com iniciativas familiares comprometidas com práticas sustentáveis, substituindo itens padronizados por experiências conectadas às histórias de quem produz.

Um dos exemplos é a parceria com o apiário de Zé Preto, em Piracaia, no interior de São Paulo. Há mais de quatro décadas, o produtor se dedica à criação de abelhas. A atividade começou ainda na adolescência e, ao longo dos anos, transformou-se em um negócio familiar baseado no respeito à natureza, no cuidado com as colmeias e na valorização dos processos artesanais.

“O amor pelas abelhas foi passando de geração em geração”, conta o produtor. Para ele, preservar esses insetos também significa proteger uma das principais bases da vida. “Sem as abelhas, nós não conseguiríamos sobreviver”, afirma.

A mesma relação de cuidado está presente no mel escolhido para integrar os brindes da Deskbee. Produzido a partir de processos naturais, cada pote acompanha um pedaço do próprio favo, proporcionando a quem recebe uma experiência próxima à degustação realizada diretamente no apiário.

“Além desse mel, vocês estão levando todo o nosso amor, esse cuidado e todo o nosso respeito”, resume o produtor. Mais do que um produto, a entrega carrega a trajetória de uma família dedicada à apicultura e aproxima clientes e parceiros das pessoas envolvidas em sua produção.

Ao incorporar essa narrativa aos seus brindes, a Deskbee amplia o papel do marketing de relacionamento. O presente deixa de cumprir apenas uma função promocional e passa a representar uma cadeia de valor que envolve pequenos produtores, produção responsável, respeito ao meio ambiente e geração de impacto positivo.

O case evidencia como a personalização pode ultrapassar aspectos funcionais e estéticos. Mais do que adaptar um item, a empresa personaliza a experiência ao conectá-la a uma origem, a pessoas e a valores reconhecíveis. O relacionamento deixa de estar concentrado apenas no momento da entrega e passa a ser construído pelo significado atribuído a ela.

A iniciativa também mostra como o propósito pode deixar o campo do discurso institucional para integrar a experiência do cliente. Ao conectar presentes corporativos a histórias reais e cadeias produtivas responsáveis, a marca transforma uma interação tradicional em uma expressão concreta de seu posicionamento.

Em relações cada vez mais mediadas por plataformas digitais, experiências tangíveis e carregadas de significado ganham potencial para criar proximidade. O valor de uma entrega passa a ser medido também por sua capacidade de gerar identificação, estimular conversas e tornar visíveis os compromissos da empresa.

Na nova fase do marketing de relacionamento, confiança e lealdade não são construídas apenas por campanhas, benefícios ou programas de fidelização. Elas também nascem das escolhas que uma marca faz, das histórias que decide valorizar e da coerência entre o que comunica e as experiências que oferece.

O case da Deskbee traduz essa transformação: quando um brinde deixa de ser apenas um objeto e passa a representar pessoas, origens e valores, a marca não entrega somente um presente. Cria uma experiência de relacionamento.

Confira mais sobre a ação em: https://www.youtube.com/watch?v=B5SY41pBS60.

Coluna “Discutindo a relação…”

Criatividade sob pressão: como produzir ideias relevantes em um mercado acelerado por IA

Por Josué Brazil (com apoio de IA)*

Imagem gerada pela IA do Canva

Durante décadas, a criatividade foi tratada como uma espécie de território protegido dos publicitários, designers, redatores e demais profissionais que trabalham com ideias. Hoje, esse território está sendo ocupado por uma nova e poderosa companhia: a inteligência artificial. Ela escreve, cria imagens, sugere conceitos, analisa tendências, produz variações e faz em segundos aquilo que antes poderia consumir horas ou dias. A questão, portanto, já não é se a IA vai participar do processo criativo. Ela já participa. A questão é outra: como continuar produzindo ideias realmente relevantes quando produzir ideias ficou tão fácil?

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo o Work Trend Index 2024, da Microsoft e do LinkedIn, 75% dos trabalhadores do conhecimento entrevistados em 31 países já utilizavam IA no trabalho, e muitos afirmavam que a tecnologia economizava tempo e aumentava a criatividade. A mesma pesquisa mostra, porém, que as organizações enfrentavam dificuldades para transformar esse uso individual em uma estratégia consistente. A velocidade da tecnologia, portanto, não elimina o problema criativo. Pelo contrário: ela aumenta a pressão para que profissionais produzam mais, mais rápido e, muitas vezes, com menos tempo para pensar.

E aqui aparece um paradoxo interessante. Se a IA consegue gerar dez, cem ou mil possibilidades em poucos minutos, o diferencial deixa de ser simplesmente ter ideias. Passa a ser saber qual ideia merece existir. Uma pesquisa publicada em 2025 por pesquisadores da Universidade de St. Gallen, que reuniu e analisou 28 estudos com mais de 8 mil participantes, encontrou um resultado revelador: pessoas trabalhando com IA tiveram desempenho criativo superior ao de pessoas trabalhando sem assistência. Mas a mesma pesquisa identificou uma redução significativa na diversidade das ideias produzidas. Em outras palavras, a IA pode ajudar a criar mais — mas existe o risco de ajudar todos a criar coisas parecidas.

Isso é especialmente preocupante para a publicidade. Afinal, criatividade não é simplesmente produzir algo bonito, engraçado ou diferente. Criatividade publicitária precisa resolver problemas de comunicação. Precisa compreender pessoas, contexto, cultura, comportamento, marca, mercado e momento. Uma ideia pode ser tecnicamente impecável e ainda assim ser completamente irrelevante. E talvez seja justamente aí que o repertório humano ganhe ainda mais valor: a máquina consegue combinar informações disponíveis, mas é o profissional que precisa perceber aquilo que ainda não está evidente.

O próprio Cannes Lions, no relatório The State of Creativity 2025, aponta um cenário preocupante: apenas 13% das empresas pesquisadas se consideram abertas ao risco criativo, enquanto 51% das marcas afirmam que seus insights são fracos demais para sustentar uma criatividade realmente ousada. Mais de metade também relata dificuldade para reagir rapidamente a momentos culturais. O problema, portanto, não parece ser apenas tecnológico. Estamos diante de uma crise de coragem, repertório e capacidade de transformar observação em insight.

Por isso, talvez o maior perigo da IA para a criatividade não seja substituir o profissional. Seja acomodá-lo. Se a primeira resposta da máquina parece boa, por que procurar uma segunda? Se o texto está bem escrito, por que questioná-lo? Se a imagem parece perfeita, por que investigar o que ela está dizendo? A criatividade humana passa a ter uma nova função: não apenas criar, mas questionar, selecionar, tensionar, contextualizar e dar sentido ao que a tecnologia produz. O profissional criativo do futuro talvez seja menos um executor de ideias e cada vez mais um editor rigoroso de possibilidades.

Isso muda também o significado de “repertório”. Em um mundo em que qualquer pessoa pode pedir à IA “10 ideias para uma campanha”, ter acesso às ideias deixou de ser vantagem competitiva. A vantagem está em enxergar o que os outros não enxergam. Observar comportamento. Entender cultura. Fazer conexões improváveis. Conhecer profundamente uma marca. Conversar com pessoas. Ler além do próprio algoritmo. Quanto mais fácil fica produzir conteúdo, mais valioso se torna ter algo interessante para dizer.

A inteligência artificial pode acelerar a criatividade, mas não deveria substituir o pensamento criativo. Pode ampliar repertórios, provocar caminhos e multiplicar possibilidades. Mas a ideia relevante continua dependendo de uma capacidade essencialmente humana: entender o mundo antes de tentar dizer alguma coisa sobre ele. Em uma época em que máquinas produzem respostas em velocidade impressionante, talvez o verdadeiro luxo criativo seja justamente aquele que sempre pareceu mais simples — parar, observar, pensar e fazer a pergunta certa. Porque, quando todo mundo pode produzir mais, quem souber pensar melhor continuará produzindo o que realmente importa.

* Josué Brazil é professor, palestrante e pesquisador das transformações que impactam a relevância de marcas, profissionais e organizações.