Marketing não é departamento. É direção.

Imagem gerada pela IA do Canva

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Há uma verdade inconveniente que ainda incomoda muitas organizações: o marketing continua sendo tratado como um setor responsável por campanhas, redes sociais, eventos e materiais institucionais. Quando muito, é chamado para “divulgar” uma decisão já tomada. O problema é que essa lógica pertence a um modelo empresarial que já não responde às exigências de um mercado cada vez mais competitivo, conectado e orientado pela experiência do cliente.

Essa visão operacional faz com que o marketing seja percebido como um prestador de serviços internos, responsável por atender às demandas de outras áreas. Comercial solicita uma campanha. Recursos Humanos pede apoio para uma ação interna. Produto precisa de um folder. Diretoria quer fortalecer a marca. Tudo isso faz parte do trabalho do marketing, mas está longe de representar sua verdadeira função estratégica. Quando a área atua apenas como executora, deixa de exercer justamente o papel que poderia gerar maior valor para a organização.

Essa discussão não é nova. Ainda na década de 1960, Theodore Levitt, professor da Harvard Business School, alertava, em seu clássico artigo Marketing Myopia, que empresas fracassam quando concentram sua atenção apenas nos produtos que fabricam, em vez das necessidades que satisfazem. A reflexão continua atual. Organizações orientadas pelo mercado não perguntam apenas “o que vamos vender?”, mas principalmente “que problema do cliente estamos resolvendo?”.

Philip Kotler, considerado um dos maiores estudiosos do marketing moderno, reforça essa perspectiva ao defender que o marketing deve orientar toda a organização para o mercado, e não apenas comunicar aquilo que ela produz. Em obras como Administração de Marketing e, mais recentemente, Marketing 5.0, escrita com Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan, o autor mostra que o marketing deixou de ser uma atividade exclusivamente promocional para tornar-se uma disciplina voltada à geração de valor, à construção de relacionamentos e à tomada de decisões estratégicas. O marketing não começa quando a campanha é criada; ele começa muito antes, na compreensão do mercado, dos consumidores, das tendências e das oportunidades.

Essa visão também dialoga com um princípio frequentemente atribuído a Peter Drucker, um dos maiores pensadores da administração. Segundo ele, o objetivo do marketing é conhecer e entender tão bem o cliente que o produto ou serviço se adapte naturalmente às suas necessidades. Independentemente da formulação exata dessa frase, a ideia central permanece relevante: marketing não é convencer pessoas a comprar algo; é compreender profundamente o mercado para construir soluções que façam sentido para ele.

Na prática, isso significa que o marketing deveria participar das decisões sobre desenvolvimento de produtos, precificação, experiência do cliente, inovação, posicionamento competitivo e até mesmo cultura organizacional. Afinal, quem está mais preparado para interpretar movimentos de consumo, mudanças de comportamento, transformações tecnológicas e expectativas dos diferentes públicos? Quando essas análises ficam de fora das discussões estratégicas, as empresas passam a decidir olhando para dentro, quando deveriam estar olhando para fora.

Michael Porter, referência mundial em estratégia competitiva, demonstra que vantagem competitiva nasce da capacidade de construir diferenciação sustentável. Essa diferenciação raramente depende apenas do produto. Ela é construída pela percepção de valor que clientes desenvolvem sobre uma marca, pela experiência entregue e pela coerência entre propósito, posicionamento e execução. Todos esses elementos fazem parte do universo do marketing estratégico.

Os números reforçam essa mudança de paradigma. O estudo The CMO Survey, conduzido pela Duke University em parceria com a Deloitte e a American Marketing Association, mostra que empresas vêm ampliando o papel do marketing na transformação digital, na gestão da experiência do cliente e nas decisões relacionadas ao crescimento sustentável. Paralelamente, pesquisas da consultoria McKinsey & Company indicam que organizações que colocam o cliente no centro das decisões apresentam desempenho superior em crescimento de receita, retenção e geração de valor para o negócio. Esses resultados sugerem que o marketing gera mais impacto quando deixa de ser apenas executor da comunicação para atuar como articulador da estratégia empresarial.

Talvez o maior desafio não seja contratar profissionais mais criativos ou investir em novas ferramentas digitais. O verdadeiro desafio é mudar a forma como a alta liderança enxerga o marketing. Enquanto ele continuar ocupando apenas uma posição operacional no organograma, continuará sendo cobrado apenas por indicadores operacionais. Mas, quando passa a participar da formulação das decisões estratégicas, influencia inovação, crescimento, reputação, competitividade e sustentabilidade dos negócios.

Cultura genuinamente orientada pelo mercado

A pergunta que toda organização deveria fazer não é “o que o marketing pode divulgar?”. A pergunta correta é outra: o que o marketing deveria estar ajudando a decidir? A resposta talvez seja uma das verdades mais inconvenientes do marketing contemporâneo: empresas não se tornam líderes porque possuem um excelente departamento de marketing. Tornam-se líderes quando desenvolvem uma cultura genuinamente orientada pelo mercado, na qual o marketing deixa de ser apenas uma área e passa a ser uma forma de pensar o negócio.

Coluna “Discutindo a relação…”

A era do profissional híbrido: por que criatividade sem repertório tecnológico perdeu espaço

Por Josué Brazil* (com apoio de IA)

Durante décadas, a criatividade foi tratada como o principal diferencial dos profissionais de comunicação e marketing. Ter boas ideias parecia suficiente para construir campanhas memoráveis, conquistar clientes e desenvolver marcas fortes. Mas o mercado mudou. Hoje, criatividade continua sendo indispensável, porém já não caminha sozinha. Ela passou a dividir protagonismo com outra competência igualmente estratégica: a capacidade de compreender e utilizar tecnologia. Estamos vivendo a consolidação da era do profissional híbrido.

Essa transformação não surgiu da noite para o dia. A digitalização dos negócios, a explosão dos dados, a inteligência artificial generativa e a automação dos processos mudaram profundamente a forma como empresas se relacionam com consumidores. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, habilidades relacionadas à tecnologia, pensamento analítico, criatividade e aprendizado contínuo aparecem entre as competências que mais crescerão em importância até o fim da década. Em outras palavras, o mercado não está escolhendo entre criatividade ou tecnologia. Ele exige as duas.

No universo da comunicação, isso significa que o profissional deixou de ser apenas um criador de peças ou campanhas para se tornar um solucionador de problemas. Um redator que entende como funcionam plataformas de inteligência artificial produz com mais velocidade e amplia seu potencial criativo. Um designer que domina ferramentas de automação entrega projetos mais eficientes. Um estrategista que interpreta métricas consegue transformar dados em decisões mais inteligentes. Como costuma afirmar Seth Godin, referência mundial em marketing, “o marketing deixou de ser sobre as coisas que fazemos para ser sobre as histórias que contamos”. Hoje, porém, contar essas histórias exige compreender os ambientes tecnológicos onde elas acontecem.

Essa mudança também altera o próprio conceito de criatividade. Durante muito tempo, criatividade era vista como um talento quase artístico, baseado apenas em inspiração. Atualmente, ela depende cada vez mais de repertório. E repertório não significa apenas cultura, cinema, literatura ou música — elementos que continuam fundamentais. Significa também conhecer plataformas digitais, entender algoritmos, explorar inteligência artificial, compreender comportamento de dados e acompanhar a evolução das ferramentas que moldam a comunicação contemporânea.

O relatório The Future of Jobs, do World Economic Forum, mostra ainda que a alfabetização tecnológica (technological literacy) está entre as habilidades que mais crescerão em demanda nos próximos anos. Paralelamente, pesquisas da consultoria McKinsey & Company indicam que empresas que conseguem integrar inteligência artificial aos seus processos tendem a aumentar significativamente produtividade, eficiência operacional e velocidade na tomada de decisão. Isso não elimina o papel humano; pelo contrário, amplia o valor dos profissionais capazes de combinar sensibilidade criativa com domínio tecnológico.

É importante destacar que ser um profissional híbrido não significa ser especialista em programação, ciência de dados ou engenharia de software. Significa compreender como as tecnologias impactam o trabalho, saber dialogar com especialistas de diferentes áreas e utilizar ferramentas digitais para potencializar resultados. O mercado valoriza cada vez mais profissionais capazes de transitar entre estratégia, criatividade, análise e inovação — conectando conhecimentos que antes pareciam pertencer a universos distintos.

Talvez o maior desafio dessa nova realidade seja abandonar a falsa oposição entre criatividade e tecnologia. Há quem ainda veja a inteligência artificial como uma ameaça ao pensamento criativo. No entanto, profissionais que experimentam essas ferramentas diariamente percebem justamente o contrário: quando bem utilizada, a tecnologia reduz tarefas repetitivas, acelera pesquisas, amplia possibilidades e libera tempo para aquilo que continua sendo exclusivamente humano — interpretar contextos, fazer conexões improváveis, gerar significado e criar experiências relevantes.

No frigir dos ovos, o mercado não está procurando pessoas que saibam apenas usar ferramentas, nem profissionais que dependam exclusivamente do talento criativo. O que empresas e marcas procuram são indivíduos curiosos, adaptáveis e dispostos a aprender continuamente. Porque, na comunicação contemporânea, a criatividade continua sendo o combustível da inovação. Mas é o repertório tecnológico que determina até onde essa criatividade consegue chegar.

*Josué Brazil é professor, palestrante e pesquisador das transformações que impactam a relevância de marcas, profissionais e organizações.

Marketing sem bússola é apenas improviso

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Em um mercado cada vez mais competitivo, muitas empresas ainda acreditam que marketing se resume à propaganda, às redes sociais ou a campanhas criativas. Embora essas ferramentas sejam importantes, elas representam apenas a ponta visível de um processo muito maior. O verdadeiro marketing começa antes da comunicação. Ele nasce da análise, do planejamento e da definição clara dos caminhos que a organização pretende seguir para alcançar seus objetivos.

Segundo Philip Kotler, considerado uma das maiores referências mundiais da área, o marketing é um processo gerencial voltado para a criação de valor e para a satisfação das necessidades dos consumidores. Para que isso aconteça de forma consistente, é necessário planejar. O planejamento de marketing funciona como uma espécie de bússola organizacional, permitindo que empresas identifiquem oportunidades, reconheçam ameaças, entendam suas forças e fraquezas e tomem decisões mais assertivas.

Uma das ferramentas mais conhecidas desse processo é a análise SWOT — ou FOFA, em português. De acordo com a plataforma educacional EBAC (Escola Britânica de Artes Criativas e Tecnologia), a metodologia auxilia as organizações a compreenderem melhor seu ambiente interno e externo por meio da avaliação de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. Trata-se de um exercício estratégico que ajuda a empresa a enxergar onde está, quais vantagens possui e quais riscos precisa enfrentar para crescer de forma sustentável.

Mas planejar sem informação é apenas adivinhar. Por isso, a pesquisa de marketing ocupa um papel fundamental na construção de estratégias. Seja por meio de pesquisas quantitativas, que revelam tendências e padrões de comportamento, seja por pesquisas qualitativas, que aprofundam percepções e motivações, as empresas conseguem compreender melhor seus consumidores, seus concorrentes e o próprio mercado. Como destaca a consultoria global McKinsey & Company, organizações orientadas por dados tendem a tomar decisões mais rápidas e alcançar resultados superiores aos de seus concorrentes.

É nesse contexto que surge o conceito de Inteligência de Marketing. Mais importante do que acumular dados é transformá-los em conhecimento útil para a tomada de decisões. Um Sistema de Informações de Marketing (SIM) reúne informações provenientes de diferentes fontes, organiza esses dados e os converte em insights estratégicos. Em outras palavras, não é a quantidade de informações que gera vantagem competitiva, mas a capacidade de interpretá-las e utilizá-las de maneira inteligente.

Depois de entender o cenário e reunir informações relevantes, chega o momento de definir a estratégia. Estratégia significa escolher o melhor caminho para atingir um objetivo. O professor e pesquisador Michael Porter defende que as empresas podem construir vantagem competitiva por meio de três caminhos principais: liderança em custos, diferenciação ou foco em nichos específicos. A escolha depende do mercado, do perfil da empresa e dos resultados que se pretende alcançar.

Outro modelo amplamente utilizado é a Matriz Ansoff, desenvolvida por Igor Ansoff. A ferramenta ajuda as organizações a visualizarem possibilidades de crescimento por meio da penetração de mercado, desenvolvimento de mercados, desenvolvimento de produtos ou diversificação. Mais do que uma teoria acadêmica, trata-se de um instrumento prático para orientar decisões sobre expansão, inovação e aproveitamento de oportunidades.

No frigir dos ovos, o sucesso do marketing não está apenas na criatividade das campanhas, mas na qualidade das decisões que as antecedem. Empresas que pesquisam, analisam, planejam e monitoram seus resultados aumentam significativamente suas chances de alcançar seus objetivos. A comunicação continua sendo fundamental, mas ela produz resultados muito melhores quando está apoiada por uma estratégia sólida. Afinal, antes de comunicar para o mercado, é preciso saber exatamente para onde se deseja ir.