Nos últimos anos, uma transformação silenciosa — e ao mesmo tempo poderosa — vem redesenhando o cenário da comunicação: a ascensão dos creators. Influenciadores, produtores de conteúdo, especialistas de nicho ou simplesmente pessoas com uma audiência fiel passaram a ocupar um espaço que antes era quase exclusivo das marcas e dos veículos tradicionais. Hoje, em muitos casos, não são apenas as empresas que falam com o público. São as pessoas.
Para as marcas, essa mudança trouxe uma oportunidade evidente: dialogar com o consumidor de forma mais próxima, humana e espontânea. Um creator não fala apenas sobre um produto. Ele o insere em uma narrativa pessoal, em uma rotina, em um estilo de vida. Isso gera identificação. E identificação, no universo da comunicação, costuma ser um atalho poderoso para a atenção e para a confiança.
Na era dos creators, a comunicação das marcas deixou de ser apenas mensagem e passou a ser relacionamento.
Mas essa relação também levanta algumas perguntas interessantes. Quando uma marca se apoia fortemente em creators para transmitir sua mensagem, ela está ampliando sua voz ou terceirizando sua própria identidade? Em outras palavras: quem está construindo a marca — a empresa ou o creator que a representa naquele momento?
Essa dúvida surgiu em minha mente pela primeira vez após acompanhar uma palestra sobre branding e identidade de marca.
Existe ainda uma questão delicada chamada autenticidade. O valor de um creator está justamente na percepção de que ele fala de forma genuína com sua audiência. Porém, quando a presença de marcas se torna excessiva ou artificial, essa relação de confiança pode se desgastar rapidamente. O público de hoje é cada vez mais sensível a conteúdos que parecem apenas publicidade disfarçada.
Por outro lado, quando bem construída, a parceria entre marcas e creators pode ser extremamente estratégica. Creators entendem profundamente sua comunidade, dominam a linguagem das plataformas e sabem como transformar comunicação em conversa. Marcas que compreendem isso deixam de tratar creators apenas como mídia e passam a enxergá-los como parceiros criativos.
Quando uma marca trabalha com creators, ela não está apenas comprando mídia. Está compartilhando narrativa.
Talvez o verdadeiro desafio esteja justamente nesse ponto de equilíbrio. Nem transformar creators em meros canais publicitários, nem esperar que eles carreguem sozinhos o peso da construção da marca. A relação mais inteligente parece ser aquela em que estratégia de marca e autenticidade do creator caminham juntas.
No fim das contas, a pergunta que fica para o mercado é simples — e provocativa: na era da economia dos creators, as marcas estão aprendendo a dialogar com essas novas vozes ou apenas tentando alugar sua audiência? A resposta, como quase tudo na comunicação, provavelmente depende de como cada marca escolhe construir essa relação.
O Carnaval é uma das maiores plataformas de atenção do Brasil. Durante alguns dias, as ruas se enchem, os feeds aceleram, os stories se multiplicam e as conversas ganham ritmo próprio. É cultura, é entretenimento, é comportamento — e, para as marcas, é oportunidade estratégica. A pergunta que fica é simples e provocativa: sua marca entrou no bloco ou ficou olhando da calçada?
Muito além do glitter e dos trios elétricos, o Carnaval representa um pico de engajamento social. O consumo muda, a rotina muda, o humor muda. As pessoas estão mais abertas à experimentação, à descoberta e à interação. Isso significa que as marcas têm um terreno fértil para gerar conexão emocional, fortalecer posicionamento e ampliar visibilidade — especialmente quando conseguem dialogar com o contexto cultural do momento.
Oportunidades regionais
E não estamos falando apenas dos megapatrocínios que dominam avenidas como as do Sambódromo da Marquês de Sapucaí ou do Circuito Barra-Ondina. O Carnaval acontece também nas cidades médias, nos bairros, nos blocos independentes e nas programações regionais. É justamente nesse território que muitas marcas encontram uma chance poderosa de presença local, construindo relevância onde realmente importa: na comunidade.
Marcas inteligentes entendem que não se trata apenas de “surfar na onda”, mas de participar da conversa com autenticidade. Isso pode significar apoiar um bloco regional, criar uma campanha temática bem-humorada, desenvolver ações promocionais contextualizadas ou produzir conteúdo que dialogue com o espírito da festa. Timing e coerência são mais valiosos do que oportunismo vazio.
Há ainda um fator importante: o Carnaval não é só evento, é narrativa. Ele gera repertório cultural, memes, tendências visuais, músicas e debates que seguem reverberando mesmo depois da quarta-feira de cinzas. Marcas que sabem capturar esses códigos e transformá-los em comunicação relevante prolongam o impacto e mantêm a conversa ativa por mais tempo.
Uma reflexão estratégica
No fim, a reflexão estratégica permanece: enquanto milhões de pessoas estavam vivendo, postando e consumindo experiências, sua marca estava onde? No camarote da estratégia bem planejada ou esperando a poeira baixar para agir? No mercado da atenção, ficar parado também é uma escolha. E, muitas vezes, é a escolha de deixar a concorrência brilhar no desfile da lembrança de marca.
Hoje, dia 07 de janeiro, comemoramos o Dia do Leitor. E, para mim, a leitura foi decisiva para a carreira publicitária e de professor publicitário. Costumo dizer que as palavras (o amor por elas) me trouxeram para a propaganda.
Em um mercado orientado por dados, tecnologia e velocidade, pode parecer que a leitura perdeu espaço para dashboards, relatórios automatizados e tendências de curto prazo. No entanto, basta observar as campanhas mais relevantes dos últimos anos para perceber que, por trás de boas ideias, continua existindo um elemento essencial: repertório. E repertório se constrói, sobretudo, por meio da leitura.
A atividade publicitária depende diretamente da capacidade de compreender contextos, comportamentos, culturas e narrativas. Ler — seja literatura, não ficção, artigos especializados ou conteúdos de áreas adjacentes — amplia a visão de mundo e oferece referências que dificilmente surgem apenas da observação superficial das tendências do momento.
Leitura como base do pensamento estratégico
Muito antes do conceito criativo, a leitura contribui para a construção do pensamento estratégico. Ao entrar em contato com diferentes pontos de vista, o profissional de comunicação desenvolve senso crítico, melhora sua capacidade analítica e passa a interpretar problemas de forma mais profunda. Isso se reflete em briefings mais bem formulados, diagnósticos mais precisos e soluções mais consistentes para marcas e negócios.
Além disso, a leitura constante ajuda a entender melhor o consumidor contemporâneo, suas transformações sociais, culturais e comportamentais — aspecto indispensável para quem trabalha com marcas que desejam ser relevantes e não apenas visíveis.
Escrita, narrativa e persuasão
Não há boa publicidade sem boa escrita. Mesmo em tempos de vídeos curtos, inteligência artificial e automação de conteúdo, o texto continua sendo o alicerce da comunicação persuasiva. Headlines, roteiros, manifestos de marca, argumentos de venda e storytelling dependem diretamente da capacidade de articular ideias com clareza, coesão e impacto.
A leitura frequente fortalece o vocabulário, aprimora o ritmo do texto e expande as possibilidades narrativas. Profissionais que leem mais tendem a escrever com mais precisão, evitar clichês e encontrar abordagens mais originais para mensagens já amplamente exploradas pelo mercado.
Repertório criativo em um cenário saturado
Em um ambiente de excesso de estímulos e informações, a criatividade não nasce do improviso, mas da combinação inteligente de referências. A leitura oferece acesso a universos simbólicos, estruturas narrativas e soluções criativas que podem ser reinterpretadas e ressignificadas na publicidade.
Nesse sentido, ler não é apenas um hábito intelectual, mas uma prática estratégica para quem deseja se diferenciar em um mercado cada vez mais competitivo e saturado de ideias semelhantes.
Mais do que um hábito, uma competência profissional
Celebrar o Dia do Leitor é também reconhecer a leitura como uma competência essencial para profissionais de propaganda, marketing e comunicação. Em meio a tantas ferramentas e tecnologias, o hábito de ler permanece como um diferencial silencioso — aquele que não aparece no portfólio, mas faz toda a diferença no resultado final.
Para quem vive de ideias, ler continua sendo uma das formas mais eficientes de se manter relevante, criativo e estrategicamente preparado para os desafios da comunicação contemporânea.
O retorno das férias parece uma jornada do herói (e você nem percebeu isso)
Já ouviu falar na Jornada do Herói? Basicamente é a ideia de que todas as histórias seguem uma estrutura em comum desde a antiguidade, das obras de milhares de anos atrás, como óperas, até os filmes mais recentes de Hollywood, como Guerra nas Estrelas. Podemos acrescentar algumas propagandas, com o uso do storytelling e, arrisco dizer, até em nossa vida, como no retorno das férias, quer ver? Então bora pra história!
Storytelling é vida
Toda propaganda moderna se baseia nos conceitos de storytelling. Ou seja, explora-se o nosso desejo latente de ouvir histórias, algo que praticamos desde quando nos reunimos ao redor de uma fogueira quando homens das cavernas (talvez falando em sinais rs).
Essa premissa de contar histórias, que seria a tradução livre do termo storytelling em inglês, vem sendo aplicada em muitas propagandas, seja para vender um novo carro ou para fazer você investir em algum curso com alguma nova fórmula para enriquecer.
Resumindo: sempre temos um narrador contando algo, tentando nos envolver, mostrar situações, gerar empatia, dar seu endosso, mostrar sua cara e “abrindo o jogo” com você na mais louca e frenética tentativa de gerar um vínculo com quem estiver ouvindo.
Sendo assim, quando chegar um vídeo desse para você no Youtube, pode anotar os passos e se preparar para uma história de como aquele produto fez bem, como a pessoa era infeliz antes ou como ela era pobre e superou tudo etc. Temos sempre uma história sendo contada e, convenhamos, gostamos mesmo de histórias, basta ver o sucesso de livros e filmes mundo afora. Pessoas, escritores, grandes mercados de entretenimento bilionários baseados simplesmente em “histórias” estão aí e provam isso. Concorda? Prendi sua atenção até aqui?
Sobre a Jornada do Herói
Joseph Campbell foi um professor e mitologista norte-americano que dedicou sua vida ao estudo dos mitos. Ele então chegou ao que chamamos hoje de Jornada do Herói. Comparando antigos livros com os mais recentes percebeu que todas as histórias tinham muitas partes parecidas de conflitos e resoluções, como se fossemos programados para falar e ouvir sempre as mesmas coisas. Como se essa fosse a essência de toda história desde sempre.
Não quero entrar em detalhes, pois vale a leitura de todos os conteúdos sobre o tema, mas muitos desses processos foram aplicados também por roteiristas de Hollywood nos maiores sucessos do cinema. Esse conceito foi dissecado pelo escritor do livro A jornada do escritor, Christopher Vogler, que indicarei para quem quiser aprofundar no tema.
Etapas da Jornada do Herói
1- Mundo comum
2- Chamado à aventura
3- Recusa do chamado
4- Encontro com o mentor
5- Travessia do limiar
6- Provas, aliados e inimigos
7- Aproximação
8- Provação Central
9- Recompensa
10- O caminho de volta
11- Ressurreição
12- Retorno com o Elixir
Essa é a estrutura que provavelmente contempla todos os atos de qualquer filme, livro, propaganda e vídeos de Youtube que tentou convencer você de que existe um método fácil de ganhar muito dinheiro com a internet, sem trabalhar. Inclusive, arrisco dizer que podemos aplicar em nossas vidas, como, por exemplo, em nosso retorno das férias. Posso dizer então que criei a Jornada do trabalhador ou do CLT. Se você se reconhecer, parabéns! Considere-se um herói/heroína.
A jornada do CLT
1- Mundo comum
Aqui está você trabalhando e pensando nas férias, cansado, estressado, cheio de preocupações, vivendo a rotina normal de acordar cedo, ir pro trabalho, voltar etc.
2- Chamado à aventura
Alguém te convida para uma viagem de férias, pode ser um amigo, um familiar, sua esposa, tanto faz.
3- Recusa do chamado
Em um primeiro momento, você recusa, pois não quer gastar dinheiro ou qualquer outra desculpa para não viajar. Em alguns casos, até diz que “vai pensar”.
4- Encontro com o mentor
Alguém irá guiar você para essa viagem, pode até ser um guia de viagens ou seu parente que sabe tudo sobre a viagem e vai te convencer.
5- Travessia do limiar
Daqui em diante não tem volta, você já comprou as passagens, já fez os planos, já está até se imaginando lá no lugar.
6- Provas, aliados e inimigos
Durante suas férias, você pode aprender alguns macetes da viagem, alguns problemas podem ser evitados, você acaba superando problemas e contratempos, alguns aliados aparecem, como um bom lugar para comer ou um lazer incrível que você quer ir novamente.
7- Aproximação
Você vive alguns momentos de surpresas pelo caminho, vai criando uma expectativa para algo ainda mais incrível que pode ocorrer. Até pode acontecer mesmo!
8- Provação Central
Você vive uma grande viagem, tem momentos realmente inesquecíveis com pessoas queridas, vive o auge das férias. Seria o clímax nos filmes.
9- Recompensa
Qual a melhor recompensa de tirar férias? Relaxamento, tranquilidade, paz, saúde, tudo que quiser colocar aqui e levar pra casa. Podem até ser brindes e lembrancinhas. Você merece!
10- O caminho de volta
Essa é a parte mais triste, mas necessária. Você precisa voltar para casa, já está no caminho de volta, literalmente. Você revê todo trajeto e já sente saudades.
11- Ressurreição
É o momento de mostrar que você realmente curtiu as férias, provar que valeu a pena. Você posta fotos que ainda não postou, você sorri para quem pergunta, comenta com alguém sobre como as férias foram boas, tudo é válido para comprovar sua grande jornada.
12- Retorno com o Elixir
Você começa sua segunda-feira de trabalho meio distante, porém, apesar do peso do retorno, parece que algo mudou dentro de você. Pode até ser que tenha mudado mesmo, pois o ócio também leva ao estado de reflexão e até a grandes ideias. E se a rotina não te engolir novamente, você pode até rever toda sua jornada e escrever novos caminhos.
Essa é minha reflexão do início de ano.
Você conseguiu viajar? Já viu histórias assim?
Que comece a sua jornada para 2022!
Texto inspirado no livro “A jornada do escritor – Estrutura mítica para escritores” de Christopher Vogler.