A força do independente em um mercado em transformação

Por Fabio Tramontano*

Como sócio de uma agência independente e alguém que já fundou três agências e vive esse mercado há duas décadas, eu tenho acompanhado de perto uma mudança estrutural bem clara no setor de comunicação no Brasil. E não é só sobre crescimento de números. O que está acontecendo é uma transformação real na forma como o mercado funciona: como as decisões são tomadas, como as relações se constroem e como clientes, agências, veículos e produtoras se conectam no dia a dia.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2024, o mercado brasileiro movimentou R$ 26,3 bilhões em compra de mídia, com crescimento de 12,17% em relação ao ano anterior. Considerando o setor como um todo, estamos falando de algo em torno de R$ 88 bilhões. Ao mesmo tempo, entre 2020 e 2023, surgiram mais de 6.500 novas agências, levando o Brasil a cerca de 22.600 empresas ativas em comunicação. E um dado chama atenção: aproximadamente 93% dessas empresas são pequenas e médias agências, ou seja, o motor desse ecossistema está justamente no independente.

Esse contexto revela algo maior do que um movimento pontual. A publicidade brasileira está passando por uma descentralização de verdade. O crescimento do número de boutiques e independentes, a força de iniciativas como o Círculo das Agências Independentes e até a presença cada vez mais frequente dessas agências em painéis e discussões internacionais, como em Cannes, não são coincidência nem efeito colateral. São consequência direta dessa nova dinâmica que vem se consolidando.

É claro que o mercado está desafiador. A complexidade do ecossistema aumentou. São mais canais, mais dados, mais tecnologia e menos tempo para decidir. A pressão por eficiência e resultados mensuráveis também cresceu, muitas vezes em ciclos curtos demais para o tamanho das ambições das marcas. E, ao mesmo tempo, grandes estruturas seguem operando com modelos engessados, que dificultam respostas rápidas em um cenário cada vez mais instável e volátil. Só que, junto com isso, existem oportunidades muito claras aparecendo para quem sabe ler o momento. As marcas estão buscando parceiros, e não apenas fornecedores. Querem proximidade, visão estratégica, senioridade real na tomada de decisão e velocidade na execução. Quem conseguir equilibrar criatividade, dados e relacionamento humano tende a aproveitar bem essa fase.

É aí que as agências independentes ganham ainda mais relevância. Coisas que, por muito tempo, foram tratadas como “tradicionais”, como proximidade, senioridade e agilidade, voltaram a ser diferenciais estratégicos. A proximidade porque o cliente fala com quem decide, sem camadas excessivas, nem filtros políticos. A senioridade porque os sócios, de fato, estão envolvidos no dia a dia do trabalho e não apenas aparecendo no discurso comercial. E a agilidade porque as decisões acontecem na mesa, e não em comitês globais, fluxos intermináveis ou calls que não acabam. Esse tripé é mais natural em estruturas independentes porque a tomada de decisão está concentrada em quem está na linha de frente, e não diluída dentro de um grupo multinacional que, muitas vezes, responde a interesses distantes da realidade local.

No campo criativo, isso também faz diferença. Agências independentes costumam operar com menos ruído interno e mais foco no problema real do cliente, o que abre espaço para experimentação, risco calculado e soluções menos padronizadas. E a inovação, nesse cenário, não está só em tecnologia de ponta ou ferramentas mirabolantes. Ela aparece principalmente na capacidade de conectar estratégia, cultura e execução com leitura fina do comportamento local, sem perder de vista o que realmente gera impacto no negócio. Muitas boutiques brasileiras têm se destacado justamente por isso: ideias simples, bem executadas e com resultado concreto. Não por acaso, campanhas independentes vêm ganhando espaço em premiações e, mais importante ainda, mostrando consistência para marcas de médio e grande porte.

Para o cliente, os ganhos são bem práticos. Existe mais atenção e personalização, menos perda de contexto entre briefing e entrega, mais coerência estratégica no longo prazo e relações mais transparentes com veículos e produtoras. E ainda tem um ponto de risco que muita gente ignora: a dependência de estruturas gigantes, onde contas podem ser redistribuídas, fundidas ou deslocadas sem que o anunciante tenha controle sobre isso.

O caso recente da Omnicom, com redistribuição de contas e reorganização de marcas, agências e lideranças, escancarou essa lógica. Em grandes grupos, decisões estratégicas frequentemente seguem uma lógica financeira e global, que nem sempre está alinhada às necessidades específicas de cada marca. Para os clientes, isso pode significar perda de histórico, troca de equipe, mudança de cultura criativa e até conflitos de interesse. O peso que cada conta passa a ter dentro dessa nova configuração do grupo nem sempre corresponde à sua importância estratégica para o anunciante. E isso, na prática, reforça o valor do independente: relações mais estáveis, visão de longo prazo e menos exposição a decisões corporativas que não consideram o impacto direto no negócio do cliente.

No fim das contas, o mercado publicitário brasileiro está mais pulverizado, mais diverso e, de certa forma, mais humano. Em meio à automação, tecnologia e escala, cresce o valor das relações próximas, de decisões rápidas e de liderança presente. As agências independentes deixaram de ser só uma alternativa e passaram a ser, cada vez mais, uma resposta natural ao que o mercado exige hoje. Valorizar esse movimento é fortalecer um ecossistema mais equilibrado, criativo e sustentável para clientes, profissionais, veículos e produtoras. Talvez a maior inovação desse momento seja justamente uma bem simples: voltar a colocar as pessoas e não apenas os processos no centro das decisões.

*Fabio Tramontano é sócio e cofundador da W+E, agência independente e full service focada em construção e posicionamento estratégico de marcas, que nasceu em 2022 para otimizar processos, livre de burocracias e compreendendo a alta performance da comunicação como resultado da proximidade dos sócios com os clientes, desde a estratégia até a execução.

Análise preditiva: a visão estratégica impulsionada pela inteligência artificial no varejo moderno

Por Tailan Oliveira*

Em um panorama cada vez mais acirrado e competitivo com transformações velozes, o mercado varejista é obrigado a não apenas ter uma simples reação aos eventos de seu ramo, mas também a assumir a capacidade de antecipar tendências e prever cenários. Ter essa capacidade é um diferencial estratégico crucial para a sustentabilidade e o crescimento desses negócios. Nesse contexto, a análise preditiva, alimentada pela inteligência artificial e pela vasta quantidade de dados disponíveis, assume o protagonismo.

De acordo com um levantamento feito pela Fundação Dom Cabral em parceria com a meta, 62% dos empresários entrevistados usam a IA para análise preditiva. Essa ação oferece uma visão necessária para planejar com precisão, otimizar operações e personalizar a jornada do cliente de forma inédita, e os varejistas não estariam fora dessa visão estratégica.

Assim como líderes empresariais reconhecem o poder da transformação tecnológica para o futuro, o varejo vislumbra na análise preditiva a bússola para ler o presente e projetar o amanhã. Por meio da possibilidade de interpretar dados e identificar padrões, torna-se possível aos varejistas, não apenas compreender o comportamento, mas também antecipar as necessidades e desejos do consumidor, conseguindo, a partir desta tecnologia, pavimentar o caminho para decisões estratégicas mais assertivas.

Ao antecipar o futuro, o varejo ganha um diferencial inestimável. Com os modelos preditivos, as empresas podem simular o impacto de diversas variáveis, desde flutuações na demanda e interrupções na cadeia de suprimentos até mudanças nas preferências dos consumidores. Essa capacidade de projeção permite uma preparação eficiente que levará os empresários a lidarem cada vez menos com surpresas negativas, além de ter uma redução de perdas e uma distribuição mais inteligente.

O planejamento operacional e financeiro, neste cenário, ganha dinamismo e agilidade sem precedentes. Torna-se possível elaborar diferentes realidades ajustáveis em tempo real às mudanças do mercado, possibilitando simulações precisas de fluxo de caixa, projeções de receita e análises de sensibilidade, tudo isso baseado em dados concretos. Utilizar desse recurso diminui a margem de erro na hora de tomar decisões e permite uma maior flexibilidade e oportunidade de adaptação aos imprevistos.

A agilidade é outro fator que chega para fazer diferença com a adoção da IA, afinal, uma tomada de decisão ágil, fundamentada em dados em tempo real, é outro pilar da análise preditiva no varejo. Ao integrar com plataformas de Business Intelligence (BI) e demais sistemas, passamos a ter uma consolidação de informações de diversas fontes, gerando insights valiosos que permitem ajustes rápidos e eficientes nas estratégias. Essa capacidade de resposta imediata às dinâmicas do mercado garante que a empresa se mantenha sempre um passo à frente.

As oportunidades de melhorias para o negócio são infinitas, mas é importante reconhecer a complexidade da implementação. Neste caso, é fundamental que os varejistas busquem parceiros especializados que possam oferecer o conhecimento e as soluções tecnológicas mais adequadas às suas necessidades específicas. Uma análise criteriosa das ferramentas disponíveis e um plano de implementação bem definido são passos importantes para que haja o sucesso da adoção da análise preditiva.

Juntamente da implementação tecnológica, é essencial o treinamento e a capacitação das equipes, principalmente para fomentar uma cultura organizacional baseada nesse universo de dados. Isso porque, quando os funcionários compreendem o valor e o funcionamento da análise preditiva, levam também os colaboradores a tornarem-se mais engajados e aptos a utilizar os insights. A capacidade de simular cenários e basear decisões em informações concretas aumenta a confiança e a proatividade em diferentes níveis dentro da organização.

No fim, a adoção da análise preditiva, impulsionada pela inteligência artificial, representa para o varejo um diferencial estratégico de alto valor. Ao antecipar riscos, otimizar recursos, personalizar a experiência do cliente e tomar decisões com agilidade e precisão, as empresas não apenas garantem uma maior estabilidade em um cenário empresarial dinâmico, mas também se posicionam de forma vantajosa para um crescimento sustentável e para a conquista da preferência do consumidor.

*Tailan Oliveira é CRO da ALFA Consultoria.

Vaga para estágio em jornalismo

Communicare abre vaga de estágio em jornalismo

Quer saber como é trabalhar numa agência de comunicação com clientes de diversos segmentos do mercado? Gosta de um ambiente amigável e que incentiva a troca de conhecimento? Então, veja se você se encaixa no perfil que a agência está buscando e venha fazer um estágio remunerado junto à equipe da Communicare.

 

Coluna “Discutindo a relação…”

Pequenas, ágeis e enxutas

Semana passada aconteceu uma discussão muito legal no Linkedin a partir de um texto postado pelo grande Luiz Buono, sócio e fundador da Fábrica. O Luiz tem se destacado nesta plataforma com textos e reflexões sempre muito bacanas e úteis.

No texto ele narrou um acontecimento de três anos atrás: uma pessoa na fila do SXSW lhe disse que o futuro seria das agências ágeis, enxutas e que tivessem liberdade maior de movimento. Agências independentes. E o Luiz relacionou isso com o recente destaque que três agências brasileiras com esse perfil obtiveram na edição deste ano em Cannes. As agências são a David, a AKQA e a W+K. Esse assunto também foi capa da Meio&Mensagem de 01 de julho.

Comentei na postagem do Buono que acreditava fortemente em um futuro breve no qual as estruturas independentes e ágeis terão mais espaço, enquanto as grandes holdings de comunicação passarão por mais dificuldades.

Olhando para nosso mercado, o mercado do Vale do Paraíba e de interior de SP como quase um todo, podemos constatar que as estruturas condensadas de nossas agências – mais por necessidade do que por inventividade –  têm garantido espaço para  competirem até mesmo nos centros maiores. O digital e suas ferramentas deixaram tudo mais horizontal e como sempre tivemos talento agora podemos competir com a vantagem da estrutura pequena (mas competente), do preço inferior (nosso custo é menor) e da agilidade e multioferta de serviços.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

As primeiras a desbravarem essa trilha e abrirem espaço no mato do mercado das capitais e até do exterior foram as chamadas agências digitais.

Muitas agências – tradicionais e digitais – optam inclusive por trabalhar por projetos, montando equipes de freelancers de acordo com cada demanda. Mesmo em São Paulo capital esse modelo já é bastante encontrado. Tive uma conversa muito boa com o Filipe Crespo da criativosbr sobre isso. O modelo de operação deles é exatamente assim. Dois sócios e uma equipe de frilas de acordo com cada demanda de cada cliente.

Também acredito que muitos modelos operacionais de prestação de serviços em comunicação passem a coexistir. Um necessariamente não exclui o outro. Todos os tipos e modelos de negócios em comunicação, marketing e propaganda estão buscando aprimorar suas armas e caprichar cada vez mais na entrega. Uns permanecerão, outros talvez não.

O mercado é assim. E novos modelos de negócios em comunicação ainda estão por surgir. É aguardar para ver.