Além do engajamento: o futuro da opinião pública

Por Igor Coelho*

A maneira como a opinião pública se constrói mudou radicalmente nos últimos anos. As conversas que antes aconteciam em redações, universidades ou mesas de bar agora se desenrolam em tempo real nas redes sociais. Nesse novo momento, o alcance é imediato e a pluralidade de vozes nunca foi tão ampla, mas a fragmentação da informação também cresceu na mesma proporção. A mídia digital não apenas vem acelerando o ritmo com que as notícias circulam, mas redefinindo quem tem voz, influência e poder de pautar o debate público.

Essas transformações revelam uma mudança profunda no processo de formação da opinião pública. A percepção do sentido coletivo passou a se espalhar pelas redes sociais. Hoje, criadores de conteúdo, comunicadores independentes e cidadãos comuns compartilham o poder de definir o que ganha visibilidade e relevância. E essa dinâmica democratiza o acesso e diversifica as vozes, mas também traz tensões: a velocidade com que a informação se espalha nem sempre vem acompanhada de verificação, e muitas vezes a emoção chega antes do fato.

De acordo com o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, o Brasil está entre os países mais digitais do mundo na maneira de se informar. Mais da metade dos brasileiros (54%) prioriza plataformas online como principal fonte de notícias. Entre elas, Instagram e YouTube lideram com 37% dos entrevistados utilizando cada uma, seguidos de WhatsApp (36%), Facebook (28%), TikTok (18%) e X (9%). O relatório também aponta o avanço de novos formatos, como podcasts (10%) e chatbots de inteligência artificial (9%), que ampliam as formas de consumo e refletem o interesse por conteúdos mais explicativos e conversacionais.

No cenário internacional, o Pew Research Center, divulgado em 2025, confirma a mesma tendência. Nos Estados Unidos, 53% dos adultos afirmam obter notícias com alguma frequência nas redes sociais. O Facebook segue como principal canal (38%), acompanhado de YouTube (35%), Instagram e TikTok (20%) e X (12%). As redes, portanto, deixaram de ser um canal alternativo e se tornaram parte orgânica da dieta informacional de milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, o público busca mais do que informação: busca conexão. As redes sociais funcionam como espaços de troca e identificação, em que estar informado significa participar ativamente das conversas e se sentir parte de algo maior. Nesse ambiente, o engajamento amplia o alcance, mas não pode substituir a credibilidade e veracidade. O valor da informação está na combinação entre relevância e utilidade pública — e na capacidade de gerar reflexões que fortaleçam o debate coletivo.

Com a descentralização, a confiança se fragmenta. A credibilidade já não depende apenas de grandes marcas de mídia, mas também se constrói em comunidades menores, em torno de vozes percebidas como competentes, íntegras e acessíveis. Por isso, espaços de diálogo que abordam temas de interesse público com equilíbrio e profundidade tornam-se essenciais para contextualizar e traduzir as narrativas que circulam nas mídias digitais. Eles ajudam a transformar volume em compreensão, oferecendo curadoria, contexto e disposição para lidar com complexidade sem ceder à pressão do feed.

Nesta era de velocidade inédita, o maior desafio — e a maior oportunidade — é construir espaços dedicados ao diálogo honesto e ao pensamento crítico. O ambiente digital não é apenas uma ferramenta, é o palco onde o futuro da opinião pública está sendo definido. Temos a responsabilidade de usar a pluralidade de vozes e a coragem para o debate como antídotos contra a polarização. É assim que vamos transformar o ruído informacional em conhecimento e reinventar o diálogo para uma sociedade mais consciente e democrática.

*Igor Coelho é fundador do Flow Podcast e CEO Grupo Flow, hub pioneiro na produção de videocasts e conteúdo digital

Publicidade que representa transforma: o papel da comunicação no combate à discriminação racial

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Hoje é celebrado o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Para quem vive a comunicação todos os dias, essa não deveria ser apenas mais uma data no calendário — mas um ponto de atenção, de reflexão e, sobretudo, de ação.

A publicidade ocupa um lugar estratégico na construção de imaginários. Ela não apenas acompanha os movimentos da sociedade, mas também ajuda a acelerá-los, freá-los ou redirecioná-los. Cada campanha, casting, roteiro ou conceito criativo contribui para definir quem aparece, como aparece e com que relevância.

Por isso, falar sobre discriminação racial dentro do universo publicitário é ir além do discurso óbvio. É reconhecer que, por muito tempo, a comunicação reforçou estereótipos, invisibilizou narrativas e limitou representações. E que ainda hoje há um caminho importante a ser percorrido.

Nos últimos anos, no entanto, começaram a surgir sinais de evolução. A presença de pessoas negras e de outros grupos historicamente sub-representados nas campanhas aumentou, impulsionada também por uma demanda clara do público — que, em sua maioria, quer ver mais diversidade na publicidade e acredita no seu poder de influenciar positivamente a sociedade. Ainda assim, os números revelam um paradoxo incômodo: a maior parte dos rostos ainda é branca, e a diversidade segue distante de refletir a realidade de um país plural como o Brasil.

Esse descompasso não está apenas na vitrine, mas também nos bastidores. As agências ainda são majoritariamente formadas por profissionais brancos, especialmente em cargos de liderança — o que impacta diretamente as decisões, os recortes e as narrativas que chegam ao público.

Representatividade, nesse contexto, deixa de ser uma escolha estética e passa a ser um posicionamento estratégico. Não se trata apenas de “incluir mais rostos”, mas de garantir autenticidade, profundidade e respeito nas histórias que são contadas. Até porque o público está atento — e cada vez mais crítico em relação a discursos que parecem oportunistas ou desconectados da prática.

A boa publicidade é aquela que conecta. E não há conexão verdadeira quando parte do público não se vê — ou pior, se vê de forma distorcida. Criar campanhas mais plurais é, ao mesmo tempo, uma questão ética e uma inteligência de negócio.

No fim das contas, comunicar é sempre um ato de escolha. E escolher construir narrativas mais justas, diversas e conscientes é o que diferencia marcas que apenas falam daquelas que, de fato, contribuem para transformar a sociedade.

Como organizar o fluxo de jobs dentro de uma agência

Imagem gerada por IA

Ou: como sair do caos criativo para um processo que realmente funciona.

Por Josué Brazil (com apoio de IA)

Se existe uma cena clássica dentro de qualquer agência de propaganda, é aquela em que tudo parece urgente ao mesmo tempo. Jobs entrando, prazos apertados, alterações de última hora e aquela sensação de que a equipe está sempre “apagando incêndio”. A verdade é que o problema raramente é a quantidade de trabalho — mas sim a forma como ele está organizado. Um bom fluxo de jobs não engessa a criação; ele dá ritmo, clareza e previsibilidade.

Comece pelo básico: centralize as demandas

Um dos erros mais comuns é receber pedidos por todos os lados: e-mail, WhatsApp, ligação, conversa de corredor… Resultado? Informação perdida e retrabalho garantido. Centralizar as demandas em um único canal ou ferramenta (mesmo que simples) já é um grande avanço. Quando todo job entra pelo mesmo lugar, fica muito mais fácil organizar, priorizar e acompanhar.

Defina etapas claras para cada job

Todo trabalho dentro de uma agência passa por etapas — briefing, planejamento, criação, aprovação e entrega. O problema é quando essas etapas não estão bem definidas ou são ignoradas no meio do caminho. Criar um fluxo padrão ajuda a equipe a entender onde cada job está e o que precisa ser feito em seguida. Menos dúvida, mais produtividade.

Prioridade não é “tudo urgente”

Se tudo é urgente, nada é urgente. Organizar o fluxo de jobs também passa por definir prioridades reais. O que tem prazo mais curto? O que tem maior impacto para o cliente? O que depende de outras entregas? Ter critérios claros evita aquela disputa silenciosa por atenção dentro da equipe — e reduz o estresse geral.

Distribua bem a carga de trabalho

Uma equipe desbalanceada é receita para atraso. Enquanto alguns profissionais ficam sobrecarregados, outros podem estar com capacidade ociosa. Ter visibilidade sobre quem está fazendo o quê ajuda a distribuir melhor os jobs e manter o fluxo mais equilibrado. Isso melhora não só a produtividade, mas também a qualidade das entregas.

Acompanhe — mas sem microgerenciar

Organizar o fluxo não significa controlar cada detalhe do trabalho da equipe. O ideal é acompanhar o andamento dos jobs, identificar possíveis gargalos e agir rapidamente quando necessário. Reuniões rápidas de alinhamento ou checkpoints ao longo do processo já ajudam a manter tudo nos trilhos sem sufocar a criatividade.

No fim das contas, organizar o fluxo de jobs é criar um sistema que permita que a agência funcione melhor — com menos ruído, menos retrabalho e mais foco no que realmente importa: boas ideias e bons resultados. Porque, no mercado publicitário, criatividade é essencial, mas organização é o que garante que ela chegue até o cliente no prazo certo.

Coluna Propaganda&Arte

O lugar onde vivemos não é um “prompt”

Por R. Guerra Cruz

Imagem real de uma paisagem rural em Juiz de Fora/MG. Um registro da vegetação da Mata Atlântica feito pelo celular durante minhas férias.

“Gere uma imagem de uma fazenda no interior.”

Em segundos, a tela entrega uma cena impecável. Mas olhe de perto: aquela árvore não existe aqui, o desenho das montanhas é genérico e a luz não é o nosso sol. O que parece “agilidade tecnológica” é, na verdade, um apagamento.

Quando a publicidade ou o design trocam uma locação real por um cenário de IA, estamos jogando fora a biografia do lugar e, de quebra, asfixiando a economia de quem vive nele.

O cenário não é fundo, é personagem

Uma paisagem real não é um palco passivo. O morro que o morador vê da janela, a curva específica de um rio ou o tipo de vegetação que cresce no nosso solo são documentos vivos. Eles dizem quem somos.

A IA trabalha com médias estatísticas globais. Ela não conhece o relevo da nossa região, a nossa fauna ou o jeito que o mato cresce na beira da estrada. Ao trocar o real pelo fictício, criamos dois grandes problemas:

1. A Morte do Pertencimento: O morador olha para a campanha e não se reconhece. Ele sente que a sua realidade “não é boa o suficiente” para ser mostrada, alimentando um padrão estético que não pertence a ninguém.

2. O Esvaziamento Econômico: Produzir localmente movimenta a engrenagem da região. É a equipe de filmagem, o fotógrafo local, o transporte, a alimentação e o comércio. Quando tudo é gerado em uma tela, o investimento que deveria circular no território simplesmente desaparece. O “custo zero” da IA tem um preço altíssimo para o desenvolvimento regional.

Do Eurocentrismo ao Algoritmo-centrismo

Já criticamos muito os antigos bancos de imagens que traziam famílias suecas para vender produtos no Brasil. Agora, corremos o risco de repetir o erro com uma máscara de “inovação”. A IA pode criar imagens “perfeitas”, mas elas são mudas e sem DNA.

Valorizar as particularidades de uma paisagem e contratar quem entende o chão que pisa é um ato de respeito territorial. É entender que a comunicação tem o poder de validar, ou de esconder, uma identidade inteira.

O que sobra quando o real é descartado?

Cada vez que escolhemos a conveniência do algoritmo em vez da verdade do território, deixamos de registrar a nossa própria história e de investir na nossa própria gente. Uma marca que não pisa no chão da sua região pode até criar imagens bonitas, mas ela perde a alma e a relevância.

A pergunta para quem planeja e cria é simples: você quer construir uma conexão real com as pessoas ou apenas entregar uma estética perfeita?

No fim das contas, a tecnologia deveria servir para destacar as nossas raízes, não para arrancá-las.